História de Convulsões

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em quadros neurológicos e obstétricos

A história de convulsões nas últimas seis horas é considerada um marcador clínico de alto risco, que pode indicar descompensação neurológica, metabólica, infecciosa ou obstétrica. Mesmo que o paciente esteja consciente e estável no momento da triagem, o fato de ter apresentado uma ou mais crises convulsivas recentes exige atenção imediata, pois há risco de recorrência, lesão cerebral, deterioração do nível de consciência e morte.

Segundo o Protocolo de Manchester, esse discriminador deve ser utilizado sempre que o paciente ou acompanhante relatar episódio convulsivo nas últimas seis horas, especialmente se:

  • É a primeira convulsão da vida,

  • rebaixamento do nível de consciência após o episódio,

  • O paciente está em estados especiais, como gestação, puerpério ou idade pediátrica.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

História de Convulsões:
Episódio(s) convulsivo(s) ocorrido(s) nas últimas seis horas, independentemente de o paciente ter se recuperado ou não.
Em gestantes no final da gravidez, essa condição pode indicar eclâmpsia, sendo tratada como emergência obstétrica absoluta.


🧠 Principais causas associadas à história de convulsões recentes

🔴 Situações neurológicas:

  • Epilepsia (descompensada ou em mudança de medicação);

  • Tumores cerebrais;

  • Traumatismo cranioencefálico;

  • Acidente vascular cerebral (AVC);

  • Malformações arteriovenosas cerebrais.

🟠 Causas metabólicas e clínicas:

  • Hipoglicemia ou hiperglicemia severa;

  • Distúrbios hidroeletrolíticos (hiponatremia, hipocalcemia);

  • Intoxicações por álcool ou drogas;

  • Abstinência alcoólica (síndrome de abstinência);

  • Insuficiência hepática (encefalopatia hepática).

🔴 Causas infecciosas:

  • Meningite ou encefalite;

  • Sepse com envolvimento neurológico.

🔴 Causa obstétrica:

  • Eclâmpsia (convulsão em gestante com sinais de pré-eclâmpsia: PA elevada, edema, proteinúria).

⚠️ Convulsão no final da gravidez ou no pós-parto imediato deve ser considerada eclâmpsia até prova em contrário.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Perguntar diretamente sobre o evento convulsivo:

    • “A pessoa teve uma convulsão hoje?”

    • “Foi nas últimas horas? Quantas vezes?”

    • “Ela voltou ao normal depois?”

    • “Foi a primeira vez?”

  2. Investigar sinais e sintomas associados:

    • Confusão mental persistente;

    • Dor de cabeça, febre, rigidez de nuca;

    • Náuseas, vômitos, alterações visuais;

    • Pressão arterial elevada (em gestantes).

  3. Analisar fatores de risco:

    • Uso de medicação anticonvulsivante?

    • Gestações em curso?

    • Presença de doenças crônicas, como insuficiência renal ou hepática?

  4. Avaliar sinais vitais e nível de consciência:

    • Glasgow, PA, FC, temperatura, glicemia capilar, SpO₂.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “História de Convulsões” pode ser utilizado nos fluxogramas:

  • Convulsões / crise epiléptica

  • Alteração do nível de consciência

  • Dor de cabeça / sinais neurológicos associados

  • Paciente gestante com alteração neurológica

  • Síndromes infecciosas com sintomas neurológicos

  • Intoxicações ou distúrbios metabólicos


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Convulsão nas últimas 6h com:

    • Gestação no 3º trimestre ou puerpério (suspeita de eclâmpsia);

    • Rebaixamento do nível de consciência persistente;

    • Déficits neurológicos associados (hemiparesia, afasia, alteração pupilar);

    • Convulsões múltiplas ou em paciente com febre e rigidez de nuca;

    • Primeira crise da vida em qualquer faixa etária com estado mental alterado.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Crise única nas últimas 6h com:

    • Recuperação do nível de consciência, mas com sonolência ou desorientação leve;

    • História conhecida de epilepsia, mas fora do padrão habitual de crise;

    • Episódio convulsivo em paciente com comorbidade grave (diabetes, câncer, HIV).

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Paciente epiléptico estável, crise habitual, com plena recuperação, sem fatores agravantes;

  • Primeira crise da vida, já recuperado, com sinais vitais normais e exame neurológico sem alterações;

  • Criança com crise febril simples, já recuperada, sem sintomas adicionais.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Gestante de 36 semanas, convulsionou há 30 minutos em casa, PA 160/105 mmHg, sonolenta, edema em membros inferiores, proteinúria relatada no pré-natal.

➡️ Fluxograma: “Gestante com alteração neurológica”
➡️ Discriminador: “História de Convulsões”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato (suspeita de eclâmpsia)


Situação 2 – Classificação Laranja

Homem de 28 anos, epiléptico, refere crise convulsiva pela manhã, diferente do padrão habitual (durou mais de 5 minutos). Está acordado, mas sonolento e com cefaleia. PA 120/80 mmHg, FC 90 bpm.

➡️ Fluxograma: “Crise epiléptica atípica”
➡️ Discriminador: “História de Convulsões”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Amarela

Menino de 4 anos, teve crise convulsiva febril de curta duração há 3 horas, com plena recuperação. Temperatura atual: 37,3 °C, está ativo e orientado.

➡️ Fluxograma: “Convulsão febril simples”
➡️ Discriminador: “História de Convulsões”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Investigar:

    • Hora da crise, duração, número de episódios;

    • Presença de comorbidades ou uso de medicamentos anticonvulsivantes;

    • Situação obstétrica, se aplicável;

  • Avaliar:

    • Estado neurológico (nível de consciência, fala, pupilas, força muscular);

    • Sinais vitais (especial atenção à PA, FC, FR e temperatura);

  • Encaminhar imediatamente em caso de:

    • Suspeita de eclâmpsia;

    • Persistência de sintomas neurológicos;

    • Rebaixamento de consciência;

  • Registrar:

    • Dados clínicos, descrição da crise, achados físicos e tempo desde o evento.


✅ O que aprendemos

O discriminador “História de Convulsões” é essencial para a identificação de riscos neurológicos imediatos, complicações infecciosas, descompensações metabólicas e emergências obstétricas como a eclâmpsia.

A correta investigação do episódio, associada à avaliação neurológica, do estado geral e das condições clínicas preexistentes, permite ao enfermeiro classificador aplicar o Protocolo de Manchester de forma segura, rápida e resolutiva, protegendo o paciente de deteriorações agudas e salvando vidas.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 22:25