76 - História de Convulsões
História de Convulsões
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em quadros neurológicos e obstétricos
A história de convulsões nas últimas seis horas é considerada um marcador clínico de alto risco, que pode indicar descompensação neurológica, metabólica, infecciosa ou obstétrica. Mesmo que o paciente esteja consciente e estável no momento da triagem, o fato de ter apresentado uma ou mais crises convulsivas recentes exige atenção imediata, pois há risco de recorrência, lesão cerebral, deterioração do nível de consciência e morte.
Segundo o Protocolo de Manchester, esse discriminador deve ser utilizado sempre que o paciente ou acompanhante relatar episódio convulsivo nas últimas seis horas, especialmente se:
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É a primeira convulsão da vida,
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Há rebaixamento do nível de consciência após o episódio,
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O paciente está em estados especiais, como gestação, puerpério ou idade pediátrica.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
História de Convulsões:
Episódio(s) convulsivo(s) ocorrido(s) nas últimas seis horas, independentemente de o paciente ter se recuperado ou não.
Em gestantes no final da gravidez, essa condição pode indicar eclâmpsia, sendo tratada como emergência obstétrica absoluta.
🧠 Principais causas associadas à história de convulsões recentes
🔴 Situações neurológicas:
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Epilepsia (descompensada ou em mudança de medicação);
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Tumores cerebrais;
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Traumatismo cranioencefálico;
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Acidente vascular cerebral (AVC);
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Malformações arteriovenosas cerebrais.
🟠 Causas metabólicas e clínicas:
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Hipoglicemia ou hiperglicemia severa;
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Distúrbios hidroeletrolíticos (hiponatremia, hipocalcemia);
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Intoxicações por álcool ou drogas;
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Abstinência alcoólica (síndrome de abstinência);
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Insuficiência hepática (encefalopatia hepática).
🔴 Causas infecciosas:
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Meningite ou encefalite;
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Sepse com envolvimento neurológico.
🔴 Causa obstétrica:
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Eclâmpsia (convulsão em gestante com sinais de pré-eclâmpsia: PA elevada, edema, proteinúria).
⚠️ Convulsão no final da gravidez ou no pós-parto imediato deve ser considerada eclâmpsia até prova em contrário.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o enfermeiro deve:
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Perguntar diretamente sobre o evento convulsivo:
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“A pessoa teve uma convulsão hoje?”
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“Foi nas últimas horas? Quantas vezes?”
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“Ela voltou ao normal depois?”
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“Foi a primeira vez?”
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Investigar sinais e sintomas associados:
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Confusão mental persistente;
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Dor de cabeça, febre, rigidez de nuca;
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Náuseas, vômitos, alterações visuais;
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Pressão arterial elevada (em gestantes).
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Analisar fatores de risco:
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Uso de medicação anticonvulsivante?
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Gestações em curso?
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Presença de doenças crônicas, como insuficiência renal ou hepática?
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Avaliar sinais vitais e nível de consciência:
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Glasgow, PA, FC, temperatura, glicemia capilar, SpO₂.
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🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
O discriminador “História de Convulsões” pode ser utilizado nos fluxogramas:
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Convulsões / crise epiléptica
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Alteração do nível de consciência
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Dor de cabeça / sinais neurológicos associados
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Paciente gestante com alteração neurológica
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Síndromes infecciosas com sintomas neurológicos
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Intoxicações ou distúrbios metabólicos
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
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Convulsão nas últimas 6h com:
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Gestação no 3º trimestre ou puerpério (suspeita de eclâmpsia);
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Rebaixamento do nível de consciência persistente;
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Déficits neurológicos associados (hemiparesia, afasia, alteração pupilar);
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Convulsões múltiplas ou em paciente com febre e rigidez de nuca;
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Primeira crise da vida em qualquer faixa etária com estado mental alterado.
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🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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Crise única nas últimas 6h com:
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Recuperação do nível de consciência, mas com sonolência ou desorientação leve;
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História conhecida de epilepsia, mas fora do padrão habitual de crise;
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Episódio convulsivo em paciente com comorbidade grave (diabetes, câncer, HIV).
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🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
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Paciente epiléptico estável, crise habitual, com plena recuperação, sem fatores agravantes;
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Primeira crise da vida, já recuperado, com sinais vitais normais e exame neurológico sem alterações;
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Criança com crise febril simples, já recuperada, sem sintomas adicionais.
📋 Exemplos clínicos aplicados
✅ Situação 1 – Classificação Vermelha
Gestante de 36 semanas, convulsionou há 30 minutos em casa, PA 160/105 mmHg, sonolenta, edema em membros inferiores, proteinúria relatada no pré-natal.
➡️ Fluxograma: “Gestante com alteração neurológica”
➡️ Discriminador: “História de Convulsões”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato (suspeita de eclâmpsia)
✅ Situação 2 – Classificação Laranja
Homem de 28 anos, epiléptico, refere crise convulsiva pela manhã, diferente do padrão habitual (durou mais de 5 minutos). Está acordado, mas sonolento e com cefaleia. PA 120/80 mmHg, FC 90 bpm.
➡️ Fluxograma: “Crise epiléptica atípica”
➡️ Discriminador: “História de Convulsões”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos
✅ Situação 3 – Classificação Amarela
Menino de 4 anos, teve crise convulsiva febril de curta duração há 3 horas, com plena recuperação. Temperatura atual: 37,3 °C, está ativo e orientado.
➡️ Fluxograma: “Convulsão febril simples”
➡️ Discriminador: “História de Convulsões”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
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Investigar:
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Hora da crise, duração, número de episódios;
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Presença de comorbidades ou uso de medicamentos anticonvulsivantes;
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Situação obstétrica, se aplicável;
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Avaliar:
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Estado neurológico (nível de consciência, fala, pupilas, força muscular);
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Sinais vitais (especial atenção à PA, FC, FR e temperatura);
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Encaminhar imediatamente em caso de:
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Suspeita de eclâmpsia;
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Persistência de sintomas neurológicos;
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Rebaixamento de consciência;
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Registrar:
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Dados clínicos, descrição da crise, achados físicos e tempo desde o evento.
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✅ O que aprendemos
O discriminador “História de Convulsões” é essencial para a identificação de riscos neurológicos imediatos, complicações infecciosas, descompensações metabólicas e emergências obstétricas como a eclâmpsia.
A correta investigação do episódio, associada à avaliação neurológica, do estado geral e das condições clínicas preexistentes, permite ao enfermeiro classificador aplicar o Protocolo de Manchester de forma segura, rápida e resolutiva, protegendo o paciente de deteriorações agudas e salvando vidas.