História de Risco Especial de Infecção

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de isolamento e vigilância epidemiológica

O discriminador “História de Risco Especial de Infecção” é utilizado quando o paciente relata exposição recente a agentes infecciosos de alta transmissibilidade ou gravidade, seja em ambiente laboratorial, hospitalar, ocupacional, domiciliar ou de viagem, o que aumenta o risco de incubação ou transmissão de doenças infecciosas graves.

No Protocolo de Manchester, esse discriminador tem papel fundamental na vigilância epidemiológica dentro dos serviços de emergência, servindo para detectar precocemente casos suspeitos de doenças infecciosas de alto impacto, como meningite, tuberculose, varíola, febres hemorrágicas, coronavírus, e outras infecções de notificação compulsória.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

História de Risco Especial de Infecção:
Qualquer relato de exposição a ambiente ou pessoa contaminada, com risco reconhecido de transmissão de agentes infecciosos relevantes.
Exemplos incluem:

  • Contato com material biológico em laboratório (vírus, bactérias, fungos);

  • Manipulação de amostras infecciosas sem EPIs adequados;

  • Exposição ocupacional em hospitais, clínicas ou necrotérios;

  • Viagens a zonas endêmicas com surtos ativos;

  • Convivência com pessoa com doença infecciosa ativa (tuberculose, hepatites, meningites, etc.).


🧠 Principais situações clínicas associadas a risco especial de infecção

🔴 Exposição em ambiente laboratorial ou hospitalar:

  • Acidente com perfurocortante contaminado;

  • Contato direto com cultura microbiológica infecciosa;

  • Quebra de barreiras de biossegurança (ex: ruptura de frasco com amostra viral).

🟠 Exposição por contato domiciliar ou comunitário:

  • Convivência recente com paciente confirmado de meningite, varicela, sarampo, escabiose;

  • Exposição prolongada a pacientes com tuberculose pulmonar ativa.

🔴 Exposição em área geográfica de risco:

  • Viagens a áreas com surtos de:

    • Ebola, Marburg, febre de Lassa;

    • Cólera, dengue, febre amarela;

    • COVID-19 (quando vigente), H1N1, influenza aviária.

🟠 Exposição ocupacional em saúde:

  • Enfermeiros, médicos, técnicos e laboratoristas que relataram falha no uso de EPI durante atendimento a paciente infectado;

  • Profissionais que manipularam cadáveres ou materiais contaminados.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Fazer perguntas específicas sobre exposição recente:

    • “Você teve contato com alguém doente nos últimos dias?”

    • “Trabalha em laboratório, hospital ou funerária?”

    • “Viajou recentemente para outra cidade ou país?”

    • “Teve algum acidente com agulha, sangue ou secreções?”

  2. Investigar o tipo de agente envolvido (se possível):

    • Bacteriano (meningite, tuberculose);

    • Viral (HIV, hepatite B/C, coronavírus, ebola);

    • Parasitário ou fúngico (histoplasmose, escabiose, etc.).

  3. Avaliar sintomas atuais e sinais vitais:

    • Febre, tosse, exantema, cefaleia intensa, vômitos, icterícia, etc.;

    • PA, FC, FR, temperatura, SpO₂.

  4. Analisar o risco de transmissão e necessidade de isolamento:

    • O paciente representa risco para si mesmo ou para os outros?

    • Há sintomas ativos ou ainda está em período de incubação?


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

Esse discriminador pode ser aplicado nos fluxogramas:

  • Exposição a material biológico / acidente com perfurocortante

  • Febre com histórico de viagem internacional

  • Contato com paciente infectado por doença de notificação

  • Doença exantemática suspeita (sarampo, rubéola, varicela)

  • Síndrome gripal com risco epidemiológico


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Exposição com sintomas graves ou sinais de infecção sistêmica:

    • Febre alta com alteração da consciência;

    • Instabilidade hemodinâmica;

    • Dispneia, exantema difuso, vômitos persistentes;

    • Suspeita de meningite ou febre hemorrágica.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Exposição com sintomas leves/moderados:

    • Febre, dor de cabeça, mialgia, sem instabilidade;

    • Tosse seca, mal-estar geral, exantema inicial;

    • Histórico de exposição direta a paciente infectado nos últimos dias.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Exposição sem sintomas ativos, mas em observação:

    • Contato recente com paciente infectado, ainda assintomático;

    • Exposição ocupacional com uso parcial de EPI;

    • Viagem para área endêmica, mas sem sinais clínicos.

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

  • Exposição sem sintomas e de baixo risco (ex: contato breve com paciente gripado);

    • Afastado do agente infeccioso há mais de 14 dias;

    • Sem comorbidades ou fatores de risco associados.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Médico de 32 anos, trabalhou em área de surto de meningococcemia há 3 dias. Hoje apresenta febre 39,5°C, vômitos, rigidez de nuca e petéquias.

➡️ Fluxograma: “Febre + contato epidemiológico com doença grave”
➡️ Discriminador: “História de Risco Especial de Infecção”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato + isolamento


Situação 2 – Classificação Laranja

Estudante de biomedicina, relata contato direto com cultura de Mycobacterium tuberculosis em laboratório, sem máscara. Sem sintomas, mas muito ansiosa.

➡️ Fluxograma: “Exposição ocupacional a agente infeccioso”
➡️ Discriminador: “História de Risco Especial de Infecção”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos + orientações


Situação 3 – Classificação Amarela

Homem de 45 anos, voltou de viagem ao interior da Amazônia há 5 dias, onde houve casos de malária. Sem febre ou sintomas, mas deseja avaliar possíveis riscos.

➡️ Fluxograma: “Vigilância pós-viagem”
➡️ Discriminador: “História de Risco Especial de Infecção”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Investigar:

    • Data, local e tipo de exposição;

    • Presença ou ausência de sintomas;

    • Uso de EPIs, tempo de contato e tipo de agente;

  • Avaliar:

    • Sinais vitais, sintomas sistêmicos, risco de transmissão;

  • Providenciar:

    • Máscara cirúrgica ou N95, se necessário;

    • Isolamento respiratório ou de contato, conforme protocolo institucional;

    • Comunicação imediata com equipe médica e CCIH (quando aplicável);

  • Registrar:

    • Histórico completo da exposição e achados da triagem;

    • Medidas adotadas, tempo de início dos sintomas e orientações fornecidas.


✅ O que aprendemos

O discriminador “História de Risco Especial de Infecção” é essencial para a vigilância clínica e epidemiológica precoce de doenças infecciosas de alta transmissibilidade ou gravidade. Ele permite ao enfermeiro classificador atuar com responsabilidade sanitária, protegendo o paciente, os profissionais e a comunidade.

Sua correta aplicação garante a efetividade do Protocolo de Manchester em cenários de surto, biossegurança e medicina preventiva, especialmente em tempos de crises epidemiológicas e emergência em saúde pública.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 22:34