História Significativa de Alergias

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco para anafilaxia e reações sistêmicas

A História Significativa de Alergias se refere à presença de uma sensibilidade conhecida a alérgenos com risco de reações graves ou potencialmente fatais, especialmente nos casos de anafilaxia, angioedema, edema de glote ou broncoespasmo alérgico.

No Protocolo de Manchester, esse discriminador é considerado um modificador de risco, sendo aplicado mesmo que o paciente não apresente sintomas alérgicos ativos no momento da triagem, mas relate uma história de reações prévias graves a alimentos, medicamentos, venenos de insetos ou outras substâncias.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

História Significativa de Alergias:
Relato de alergia previamente diagnosticada ou experimentada, especialmente quando:

  • Já houve anafilaxia, edema de glote ou reações graves;

  • O alérgeno é de exposição comum ou de difícil evitabilidade (como alimentos, picadas de insetos, medicações de uso hospitalar);

  • O paciente usa adrenalina autoinjetável (ex: Epipen®);

  • Há necessidade de monitoramento rigoroso em caso de reexposição acidental.


🧠 Exemplos de alergias consideradas significativas

🔴 Alimentos:

  • Nozes, amendoim, castanhas, frutos do mar, leite, ovos, trigo, soja

  • Exposição mínima pode desencadear reação grave

🔴 Medicamentos:

  • Antibióticos (penicilinas, cefalosporinas, sulfas);

  • Anti-inflamatórios (AINEs), analgésicos, anestésicos;

  • Contrastes iodados.

🔴 Venenos e substâncias ambientais:

  • Picadas de abelha, vespa, marimbondo;

  • Látex, pólen, mofo, ácaros.

🔴 Produtos químicos e cosméticos:

  • Tintas de cabelo, perfumes, sabões, conservantes


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Perguntar diretamente sobre alergias conhecidas:

    • “Você tem alergia a algum medicamento, alimento ou picada de inseto?”

    • “Já teve alguma reação grave, como falta de ar ou desmaio por alergia?”

    • “Já usou adrenalina ou precisou ser entubado por causa de uma reação alérgica?”

  2. Avaliar o tipo de reação anterior:

    • Reação leve: coceira, urticária localizada, desconforto leve

    • Reação grave: angioedema, dispneia, estridor, hipotensão, síncope

  3. Verificar presença de medicações preventivas:

    • Uso de epinefrina autoinjetável

    • Antialérgicos de uso regular (loratadina, hidroxizina, prednisona)

  4. Registrar o tipo de alérgeno e a gravidade da reação anterior:

    • Se possível, obter detalhes sobre local, tempo e evolução do episódio.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “História Significativa de Alergias” pode ser aplicado nos fluxogramas:

  • Reação alérgica / anafilaxia

  • Edema de língua / edema facial

  • Dificuldade respiratória súbita com causa alérgica

  • Complicações medicamentosas / reações adversas a drogas

  • Contato com substância alergênica conhecida


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • História de alergia significativa + sintomas atuais compatíveis com anafilaxia:

    • Rouquidão, estridor, dispneia, sialorreia, palidez, cianose

    • Queda de pressão, confusão mental, urticária difusa

    • Uso prévio de epinefrina sem melhora

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • História significativa de anafilaxia prévia, mas sem sintomas no momento

    • Contato recente ou possível com o alérgeno

    • Paciente em estado de alerta, mas com medo ou ansiedade

    • História de reação grave a alimentos de uso comum (ex: amendoim, frutos do mar)

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Alergia conhecida com:

    • Reações passadas leves (ex: urticária leve sem dispneia)

    • Sem exposição atual ou sinais clínicos

    • Sem necessidade de adrenalina em episódios anteriores

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

Raramente aplicável para esse discriminador.
Pacientes com histórico de reação alérgica significativa devem ser avaliados com prioridade, mesmo que sem sintomas no momento.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Mulher de 25 anos, com alergia conhecida a camarão, ingeriu alimento em restaurante e apresenta edema labial, rouquidão e dificuldade para respirar. SpO₂ 91%, PA 90/60 mmHg.

➡️ Fluxograma: “Anafilaxia”
➡️ Discriminador: “História Significativa de Alergias”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato + suporte avançado


Situação 2 – Classificação Laranja

Homem de 34 anos, refere alergia grave a penicilina. Acidentalmente recebeu amoxicilina há 20 minutos, mas ainda não tem sintomas. Está ansioso, PA e FC normais.

➡️ Fluxograma: “Exposição recente a alérgeno”
➡️ Discriminador: “História Significativa de Alergias”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Amarela

Menina de 9 anos, tem alergia a ovo com reação leve (urticária localizada). Foi à escola onde serviram bolo com ovo, mas não ingeriu. Sem sintomas.

➡️ Fluxograma: “Observação pós-exposição sem sintomas”
➡️ Discriminador: “História Significativa de Alergias”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar:

    • Presença de sintomas sistêmicos atuais

    • História de anafilaxia, broncoespasmo ou edema de glote

    • Uso de medicamentos antialérgicos ou epinefrina

  • Verificar:

    • Sinais vitais (PA, FC, SpO₂, FR)

    • Presença de lesões cutâneas, edema, sinais respiratórios

  • Providenciar:

    • Oxigênio suplementar, acesso venoso, monitor cardíaco (em casos moderados a graves)

    • Isolamento ou sala de emergência em casos críticos

    • Comunicação imediata com equipe médica

  • Registrar:

    • Alérgeno envolvido, tipo de reação anterior, medicamentos em uso, evolução atual


✅ O que aprendemos

O discriminador “História Significativa de Alergias” é essencial para identificar pacientes com risco real de anafilaxia ou outras reações sistêmicas graves, mesmo quando ainda não há sintomas no momento da triagem.

A atenção e o cuidado do enfermeiro classificador, conforme os critérios do Protocolo de Manchester, são determinantes para evitar deterioração rápida do quadro e salvar vidas, especialmente em casos com risco respiratório ou cardiovascular.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 22:57