86 - História Significativa de Diarreia
História Significativa de Diarreia
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco para desidratação e distúrbios hidroeletrolíticos
A diarreia é caracterizada pelo aumento da frequência das evacuações, geralmente acima de três episódios em 24 horas, com fezes de consistência pastosa, aquosa ou líquida. Quando ocorre com alta frequência, grande volume, ou associada a vômitos, febre, sangue nas fezes ou sinais de desidratação, passa a ser considerada significativa.
No Protocolo de Manchester, o discriminador “História Significativa de Diarreia” é utilizado para identificar pacientes com potencial risco de desidratação aguda, especialmente crianças, idosos e pacientes imunossuprimidos, mesmo que ainda estejam clinicamente compensados. Este discriminador ajuda a antecipar a gravidade e priorizar o atendimento antes da instalação de complicações, como choque hipovolêmico, acidose metabólica ou sepse.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
História Significativa de Diarreia:
Episódio de diarreia aguda ou crônica que, por sua frequência, volume ou associação com outros sintomas, representa risco iminente de desidratação ou colapso clínico.
Critérios relevantes incluem:
Mais de 6 evacuações líquidas em menos de 12 horas;
Presença de sangue, muco ou pus nas fezes;
Vômitos associados, febre, dor abdominal intensa ou sinais de toxemia;
Diarreia em crianças pequenas, idosos ou imunodeprimidos.
🧠 Etiologias clínicas mais comuns da diarreia significativa
🔴 Causas infecciosas:
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Gastroenterites virais (rotavírus, norovírus);
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Infecções bacterianas (Salmonella, Shigella, E. coli enterotoxigênica);
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Amebíase, giardíase ou outras parasitoses;
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Clostridium difficile (em pacientes em uso de antibióticos).
🟠 Causas inflamatórias ou autoimunes:
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Doença de Crohn, retocolite ulcerativa;
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Enterites autoimunes, síndrome do intestino irritável com diarreia grave.
🟡 Causas medicamentosas ou alimentares:
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Antibióticos, laxantes, quimioterápicos;
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Intolerância à lactose ou glúten (doença celíaca);
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Reação a alimentos contaminados ou uso de suplementos.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o enfermeiro deve:
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Perguntar sobre o número e o tipo das evacuações:
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“Quantas vezes evacuou hoje?”
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“A consistência estava pastosa, líquida, com sangue ou muco?”
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“Acordou à noite para evacuar?”
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Investigar sintomas associados:
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Náuseas, vômitos, febre, dor abdominal, cólicas, perda de apetite;
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Sinais de desidratação: boca seca, fraqueza, tontura, hipotensão, diurese diminuída.
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Avaliar fatores de risco especiais:
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Crianças menores de 2 anos, idosos > 65 anos, gestantes;
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Pacientes com comorbidades (diabetes, doença renal, imunossupressão);
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Viagem recente, uso de antibióticos, exposição alimentar de risco.
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Verificar sinais vitais e estado geral:
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PA, FC, FR, temperatura, SpO₂, turgor da pele, presença de letargia ou sonolência.
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🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
Este discriminador pode ser utilizado nos seguintes fluxogramas:
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Diarreia aguda / crônica
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Dor abdominal associada a diarreia ou distensão
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Febre com sintomas gastrointestinais
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Desidratação / desequilíbrio hidroeletrolítico
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Criança com quadro gastrointestinal com risco aumentado
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
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Diarreia intensa com:
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Letargia, confusão mental, palidez, hipotensão;
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Taquicardia grave, extremidades frias, SpO₂ < 92%;
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Mais de 10 evacuações líquidas nas últimas 6h + vômitos contínuos;
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Criança com sinais graves de desidratação ou ausência de diurese.
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🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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Diarreia significativa com:
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Sinais de desidratação moderada (PA baixa, FC aumentada, mucosas secas);
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Presença de sangue nas fezes, dor abdominal intensa, febre > 38,5ºC;
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Associação com vômitos frequentes e inapetência;
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Idoso frágil com evacuações líquidas frequentes.
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🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
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Diarreia frequente, sem sinais clínicos de alarme:
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3 a 5 episódios por dia, mas com ingestão hídrica mantida;
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Sem febre ou vômitos ativos;
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Exame físico estável, sem sinais de desidratação evidente.
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🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos
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Diarreia leve com bom estado geral:
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1 a 2 evacuações pastosas sem sintomas associados;
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Quadro já em resolução;
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Consulta por orientação ou reavaliação de quadro não grave.
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📋 Exemplos clínicos aplicados
✅ Situação 1 – Classificação Vermelha
Criança de 1 ano e 3 meses, com mais de 10 episódios de diarreia aquosa nas últimas 6h, vômitos constantes, sonolenta, olhos fundos, sem urina nas últimas 10h. FC 160 bpm, PA difícil de aferir.
➡️ Fluxograma: “Desidratação grave por gastroenterite”
➡️ Discriminador: “História Significativa de Diarreia”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato + hidratação venosa
✅ Situação 2 – Classificação Laranja
Idoso de 68 anos, com 7 episódios de evacuação líquida desde a manhã, febre 38,6 °C, queixa de tontura e fraqueza. FC 115 bpm, PA 95/60 mmHg, mucosa oral seca.
➡️ Fluxograma: “Gastroenterite com sinais de desidratação moderada”
➡️ Discriminador: “História Significativa de Diarreia”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos
✅ Situação 3 – Classificação Amarela
Homem de 30 anos, relata 5 episódios de diarreia desde ontem, fezes pastosas, sem sangue, sem febre. Ingerindo líquidos normalmente. Sinais vitais estáveis.
➡️ Fluxograma: “Diarreia aguda leve”
➡️ Discriminador: “História Significativa de Diarreia”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
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Avaliar sinais de desidratação:
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Enchimento capilar, turgor, frequência urinária, pressão arterial postural;
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Investigar:
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Número de evacuações, características das fezes, sintomas associados (vômito, febre, sangue);
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Condições de base e fatores de risco;
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Providenciar:
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Hidratação oral ou venosa conforme protocolo local;
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Monitoramento contínuo em casos moderados a graves;
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Encaminhamento prioritário para equipe médica;
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Registrar:
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Frequência e tipo das evacuações, presença de febre, vômitos, sinais clínicos e condições associadas.
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✅ O que aprendemos
O discriminador “História Significativa de Diarreia” permite ao enfermeiro identificar precocemente pacientes em risco de desidratação grave, mesmo quando o quadro parece clínico leve. Sua aplicação correta garante que crianças, idosos, pacientes imunossuprimidos e desidratados recebam prioridade adequada no atendimento.
Ao aplicar este critério com precisão e sensibilidade, o profissional de enfermagem contribui diretamente para a prevenção de agravamentos clínicos, hospitalizações evitáveis e até óbitos por complicações gastrointestinais.