87 - História Significativa de Incidente
História Significativa de Incidente
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em traumas de alta energia
O discriminador “História Significativa de Incidente” tem como objetivo identificar eventos traumáticos com alto potencial de lesão grave ou oculta, mesmo que a avaliação clínica inicial não revele sinais evidentes de instabilidade. Situações como quedas de grandes alturas, acidentes automobilísticos com ejeção de ocupante ou morte no mesmo veículo, são consideradas de alto risco, independente dos sinais vitais no momento da triagem.
Segundo o Protocolo de Manchester, o enfermeiro classificador deve aplicar esse discriminador quando o mecanismo do trauma for, por si só, capaz de gerar lesões internas, politraumatismo ou comprometimento progressivo, mesmo que o paciente esteja alerta ou sem dor intensa no momento.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
História Significativa de Incidente:
Presença de fatores relacionados ao mecanismo do trauma que indicam risco elevado de lesão oculta ou grave, incluindo:
Queda de altura superior a 2 metros (adultos) ou 1 metro (crianças);
Ejeção de veículo automotor durante colisão;
Capotamento, colisão frontal ou lateral com grande deformação do veículo;
Morte de ocupante do mesmo veículo no acidente;
Atropelamento com projeção da vítima;
Trauma penetrante torácico ou abdominal, mesmo sem sinais externos exuberantes.
🧠 Fatores de risco implícitos na história do incidente
🔴 Traumas de alta energia:
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Colisão entre veículos em alta velocidade (> 60 km/h);
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Acidente com motocicletas ou ciclistas sem capacete;
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Colisão com caminhão ou ônibus;
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Desabamento, soterramento, esmagamento.
🟠 Ambientes especiais:
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Queda em construção civil ou de escada alta;
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Trauma agrícola (máquinas, tratores);
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Acidentes de trabalho com ferramentas pesadas.
🟡 Grupos vulneráveis:
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Crianças pequenas em qualquer queda superior à sua altura corporal;
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Idosos com osteopenia ou uso de anticoagulantes (risco de sangramento interno).
⚠️ Mesmo com aparente estabilidade clínica, esses mecanismos impõem alta suspeita de lesões torácicas, abdominais, ortopédicas, raquimedulares ou cranianas ocultas.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o enfermeiro deve:
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Questionar detalhadamente sobre a dinâmica do acidente:
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“Você caiu de que altura?”
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“Estava no banco da frente ou de trás?”
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“O carro capotou ou você foi arremessado?”
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“Alguém morreu ou ficou preso no acidente?”
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Observar se há sinais clínicos compatíveis com trauma de alta energia:
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Escoriações extensas, hematomas, sinais de trauma torácico ou abdominal;
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Fraturas ou deformidades em membros;
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Rebaixamento do nível de consciência, mesmo que transitório.
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Verificar sinais vitais e reações à dor:
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PA, FC, Glasgow, saturação, avaliação da dor;
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Presença de palidez, sudorese, taquipneia.
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Avaliar fatores de risco individuais:
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Idoso, gestante, criança, usuário de anticoagulantes, comorbidades clínicas.
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🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
Esse discriminador pode ser aplicado nos fluxogramas:
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Politraumatismo / trauma fechado ou penetrante
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Queda de altura / acidente doméstico ou ocupacional
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Colisão veicular / trauma de alta energia
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Atropelamento / acidente com motocicleta ou bicicleta
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Paciente encontrado inconsciente após acidente
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
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Acidente com:
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Ejeção de veículo + rebaixamento de consciência;
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Morte de ocupante no mesmo carro;
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Instabilidade hemodinâmica (PA < 90 mmHg, FC > 130 bpm);
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Dor torácica ou abdominal intensa após queda > 5 metros.
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🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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História significativa de incidente + sinais moderados:
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Queda > 2 metros, sem perda de consciência, mas com dor lombar ou torácica;
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Capotamento veicular, mas paciente alerta e orientado;
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Trauma torácico fechado com dor ventilatório-dependente e FR elevada.
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🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
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Mecanismo potencialmente grave, mas paciente estável:
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Queda da própria altura com dor leve e sem sinais de lesão importante;
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Colisão em baixa velocidade com leve deformação veicular;
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Criança que caiu do sofá, sem hematomas e com bom estado geral.
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📋 Exemplos clínicos aplicados
✅ Situação 1 – Classificação Vermelha
Homem de 42 anos, envolvido em acidente automobilístico com morte de outro ocupante. Ejetado do carro, apresenta dor abdominal difusa, PA 85/60 mmHg, FC 132 bpm.
➡️ Fluxograma: “Politrauma por colisão veicular”
➡️ Discriminador: “História Significativa de Incidente”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato
✅ Situação 2 – Classificação Laranja
Mulher de 28 anos, motociclista, colidiu com carro e foi arremessada a 3 metros. Está consciente, queixando-se de dor lombar e no punho. Sinais vitais estáveis.
➡️ Fluxograma: “Trauma de alta energia – motocicleta”
➡️ Discriminador: “História Significativa de Incidente”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos
✅ Situação 3 – Classificação Amarela
Homem de 60 anos, caiu de uma escada de 1,5m de altura. Refere dor leve em quadril, sem hematomas aparentes. Sinais vitais estáveis, andando com apoio.
➡️ Fluxograma: “Queda de altura moderada com dor localizada”
➡️ Discriminador: “História Significativa de Incidente”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
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Avaliar:
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Tipo, local e dinâmica do incidente;
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Presença de dor, sensibilidade à palpação, sinais de trauma externo;
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Sinais vitais e nível de consciência (Glasgow);
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Investigar:
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Se houve perda de consciência, uso de cintos, presença de airbag;
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Condições de base (idoso, anticoagulado, gestante);
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Providenciar:
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Encaminhamento ágil para avaliação médica;
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Monitoramento contínuo, acesso venoso, oxigênio se necessário;
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Registrar:
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Detalhes do incidente, alterações clínicas e medidas adotadas.
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✅ O que aprendemos
O discriminador “História Significativa de Incidente” é essencial para reconhecer situações de trauma potencialmente grave, em que o risco não depende apenas do estado atual do paciente, mas sim da dinâmica e energia envolvida no evento.
A aplicação adequada desse critério garante que pacientes com risco oculto de sangramentos internos, fraturas ou lesões abdominais/torácicas sejam atendidos com a rapidez e segurança necessárias, evitando atrasos fatais.