História de Sobredosagem ou Envenenamento

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco toxicológico

O discriminador “História de Sobredosagem ou Envenenamento” é utilizado na triagem sempre que houver relato direto ou evidência indireta de ingestão voluntária ou acidental de substâncias tóxicas — como medicamentos, drogas ilícitas, produtos químicos, plantas venenosas, ou alimentos contaminados — mesmo que o paciente esteja assintomático no momento.

Segundo o Protocolo de Manchester, a simples suspeita de envenenamento ou sobredosagem, ainda que não confirmada, é suficiente para classificar o paciente como de risco aumentado, já que muitos agentes tóxicos têm latência de ação, e os efeitos podem surgir tardiamente, com rebaixamento da consciência, convulsões, arritmias ou falência respiratória.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

História de Sobredosagem ou Envenenamento:
Qualquer situação em que o paciente tenha:

  • Relato próprio ou de terceiros sobre ingestão/inalação/injeção de substância tóxica;

  • Achados sugestivos, como frascos vazios, embalagens ao lado do corpo, odor típico, manchas na pele ou ao redor da boca;

  • Comportamento sugestivo, como alteração do nível de consciência, fala arrastada, agressividade ou sonolência não explicada.


🧠 Principais tipos de substâncias envolvidas

🔴 Medicamentos (intencionais ou acidentais):

  • Benzodiazepínicos (diazepam, clonazepam);

  • Antidepressivos tricíclicos, anticonvulsivantes;

  • Paracetamol, AINEs, opioides;

  • Sobredosagem por insulina, metformina.

🔴 Substâncias ilícitas ou recreativas:

  • Cocaína, crack, LSD, ecstasy, heroína, canabinoides sintéticos;

  • Inalantes e solventes (cola, thinner, spray de tinta).

🟠 Produtos domésticos e industriais:

  • Ácidos, soda cáustica, alvejantes, detergentes, pesticidas, raticidas;

  • Produtos agrícolas (organofosforados).

🟡 Envenenamento alimentar ou natural:

  • Cogumelos tóxicos, frutos silvestres desconhecidos;

  • Alimentos contaminados com toxinas bacterianas;

  • Picadas de animais peçonhentos (escorpião, cobra, aranha).


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Perguntar objetivamente sobre ingestão ou exposição:

    • “Tomou alguma medicação diferente ou em dose maior que o habitual?”

    • “Alguém viu você ingerir algum produto?”

    • “Tinha caixas, frascos ou venenos próximos?”

    • “Já aconteceu algo assim antes?”

  2. Observar o estado clínico atual:

    • Alerta, sonolento ou com rebaixamento de consciência?

    • Apresenta vômitos, náuseas, sudorese, convulsões, pupilas alteradas?

  3. Investigar dados adicionais com terceiros (se possível):

    • Familiares, amigos ou socorristas que tragam informações confiáveis.

  4. Analisar achados ambientais ou de vestimenta:

    • Frascos vazios ao lado do paciente, cheiro forte, manchas químicas na pele.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

Esse discriminador pode ser usado nos fluxogramas:

  • Intoxicação exógena / ingestão de substância tóxica

  • Tentativa de suicídio com medicação ou produto químico

  • Comportamento alterado com causa tóxica suspeita

  • Paciente inconsciente sem causa definida, com frascos ao lado

  • Acidente doméstico com produto químico ou animal peçonhento


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Sobredosagem confirmada ou suspeita com:

    • Rebaixamento de consciência (Glasgow < 13);

    • Vômitos incoercíveis, convulsões, pupilas não reativas;

    • Sinais de instabilidade hemodinâmica;

    • Ingestão de substâncias com alto risco de morte (paracetamol em dose alta, organofosforados, antidepressivos tricíclicos).

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • História de ingestão recente de substância tóxica, sem sintomas graves:

    • Alerta, mas confuso ou com náuseas/vômitos leves;

    • Ingestão de substância potencialmente tóxica, mas ainda assintomático;

    • Medicações com toxicidade retardada (paracetamol, carbonato de lítio, colchicina).

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Relato de ingestão ou exposição há mais de 12h, paciente estável, sem sintomas;

    • Quantidade pequena ingerida, sem efeitos colaterais;

    • Substância de baixa toxicidade (ex: pasta de dente, cosméticos infantis).


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Mulher de 27 anos, encontrada inconsciente ao lado de frascos vazios de clonazepam e amitriptilina. Pupilas puntiformes, PA 85/50 mmHg, FC 48 bpm, Glasgow 9.

➡️ Fluxograma: “Intoxicação medicamentosa grave”
➡️ Discriminador: “História de Sobredosagem ou Envenenamento”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato + suporte avançado


Situação 2 – Classificação Laranja

Adolescente de 16 anos, confessa ter tomado 10 comprimidos de paracetamol por briga familiar. Está consciente, sem sintomas. Última ingestão há 1h.

➡️ Fluxograma: “Ingestão intencional de paracetamol”
➡️ Discriminador: “História de Sobredosagem ou Envenenamento”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Amarela

Criança de 3 anos, ingestão acidental de pequena quantidade de creme dental com flúor. Está ativa, sem sintomas, com vigilância dos pais.

➡️ Fluxograma: “Exposição a substância de baixa toxicidade”
➡️ Discriminador: “História de Sobredosagem ou Envenenamento”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar:

    • Sinais de intoxicação aguda: pupilas, PA, FC, FR, nível de consciência, vômitos;

    • Substância envolvida (nome, concentração, tempo e via de exposição);

  • Observar:

    • Frascos vazios, sinais de depressão respiratória ou bradicardia;

  • Providenciar:

    • Encaminhamento imediato para avaliação médica;

    • Monitoramento contínuo, acesso venoso, oxigênio suplementar;

  • Registrar:

    • Nome e dose da substância ingerida (se conhecida);

    • Tempo desde a exposição, sintomas, medidas já adotadas (ex: vômito induzido, carvão ativado).


✅ O que aprendemos

O discriminador “História de Sobredosagem ou Envenenamento” é fundamental para garantir que pacientes com exposição a agentes tóxicos, mesmo sem sintomas iniciais, recebam atendimento prioritário e vigilância adequada, prevenindo evolução para quadros graves como insuficiência respiratória, convulsões, arritmias ou morte.

Sua correta aplicação no Protocolo de Manchester permite ao enfermeiro atuar com precisão, responsabilidade e segurança, salvando vidas por meio de uma triagem precoce e eficaz.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 23:14