88 - História de Sobredosagem ou Envenenamento
História de Sobredosagem ou Envenenamento
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco toxicológico
O discriminador “História de Sobredosagem ou Envenenamento” é utilizado na triagem sempre que houver relato direto ou evidência indireta de ingestão voluntária ou acidental de substâncias tóxicas — como medicamentos, drogas ilícitas, produtos químicos, plantas venenosas, ou alimentos contaminados — mesmo que o paciente esteja assintomático no momento.
Segundo o Protocolo de Manchester, a simples suspeita de envenenamento ou sobredosagem, ainda que não confirmada, é suficiente para classificar o paciente como de risco aumentado, já que muitos agentes tóxicos têm latência de ação, e os efeitos podem surgir tardiamente, com rebaixamento da consciência, convulsões, arritmias ou falência respiratória.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
História de Sobredosagem ou Envenenamento:
Qualquer situação em que o paciente tenha:
Relato próprio ou de terceiros sobre ingestão/inalação/injeção de substância tóxica;
Achados sugestivos, como frascos vazios, embalagens ao lado do corpo, odor típico, manchas na pele ou ao redor da boca;
Comportamento sugestivo, como alteração do nível de consciência, fala arrastada, agressividade ou sonolência não explicada.
🧠 Principais tipos de substâncias envolvidas
🔴 Medicamentos (intencionais ou acidentais):
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Benzodiazepínicos (diazepam, clonazepam);
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Antidepressivos tricíclicos, anticonvulsivantes;
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Paracetamol, AINEs, opioides;
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Sobredosagem por insulina, metformina.
🔴 Substâncias ilícitas ou recreativas:
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Cocaína, crack, LSD, ecstasy, heroína, canabinoides sintéticos;
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Inalantes e solventes (cola, thinner, spray de tinta).
🟠 Produtos domésticos e industriais:
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Ácidos, soda cáustica, alvejantes, detergentes, pesticidas, raticidas;
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Produtos agrícolas (organofosforados).
🟡 Envenenamento alimentar ou natural:
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Cogumelos tóxicos, frutos silvestres desconhecidos;
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Alimentos contaminados com toxinas bacterianas;
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Picadas de animais peçonhentos (escorpião, cobra, aranha).
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o enfermeiro deve:
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Perguntar objetivamente sobre ingestão ou exposição:
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“Tomou alguma medicação diferente ou em dose maior que o habitual?”
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“Alguém viu você ingerir algum produto?”
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“Tinha caixas, frascos ou venenos próximos?”
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“Já aconteceu algo assim antes?”
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Observar o estado clínico atual:
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Alerta, sonolento ou com rebaixamento de consciência?
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Apresenta vômitos, náuseas, sudorese, convulsões, pupilas alteradas?
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Investigar dados adicionais com terceiros (se possível):
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Familiares, amigos ou socorristas que tragam informações confiáveis.
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Analisar achados ambientais ou de vestimenta:
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Frascos vazios ao lado do paciente, cheiro forte, manchas químicas na pele.
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🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
Esse discriminador pode ser usado nos fluxogramas:
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Intoxicação exógena / ingestão de substância tóxica
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Tentativa de suicídio com medicação ou produto químico
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Comportamento alterado com causa tóxica suspeita
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Paciente inconsciente sem causa definida, com frascos ao lado
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Acidente doméstico com produto químico ou animal peçonhento
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
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Sobredosagem confirmada ou suspeita com:
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Rebaixamento de consciência (Glasgow < 13);
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Vômitos incoercíveis, convulsões, pupilas não reativas;
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Sinais de instabilidade hemodinâmica;
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Ingestão de substâncias com alto risco de morte (paracetamol em dose alta, organofosforados, antidepressivos tricíclicos).
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🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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História de ingestão recente de substância tóxica, sem sintomas graves:
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Alerta, mas confuso ou com náuseas/vômitos leves;
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Ingestão de substância potencialmente tóxica, mas ainda assintomático;
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Medicações com toxicidade retardada (paracetamol, carbonato de lítio, colchicina).
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🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
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Relato de ingestão ou exposição há mais de 12h, paciente estável, sem sintomas;
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Quantidade pequena ingerida, sem efeitos colaterais;
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Substância de baixa toxicidade (ex: pasta de dente, cosméticos infantis).
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📋 Exemplos clínicos aplicados
✅ Situação 1 – Classificação Vermelha
Mulher de 27 anos, encontrada inconsciente ao lado de frascos vazios de clonazepam e amitriptilina. Pupilas puntiformes, PA 85/50 mmHg, FC 48 bpm, Glasgow 9.
➡️ Fluxograma: “Intoxicação medicamentosa grave”
➡️ Discriminador: “História de Sobredosagem ou Envenenamento”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato + suporte avançado
✅ Situação 2 – Classificação Laranja
Adolescente de 16 anos, confessa ter tomado 10 comprimidos de paracetamol por briga familiar. Está consciente, sem sintomas. Última ingestão há 1h.
➡️ Fluxograma: “Ingestão intencional de paracetamol”
➡️ Discriminador: “História de Sobredosagem ou Envenenamento”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos
✅ Situação 3 – Classificação Amarela
Criança de 3 anos, ingestão acidental de pequena quantidade de creme dental com flúor. Está ativa, sem sintomas, com vigilância dos pais.
➡️ Fluxograma: “Exposição a substância de baixa toxicidade”
➡️ Discriminador: “História de Sobredosagem ou Envenenamento”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
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Avaliar:
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Sinais de intoxicação aguda: pupilas, PA, FC, FR, nível de consciência, vômitos;
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Substância envolvida (nome, concentração, tempo e via de exposição);
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Observar:
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Frascos vazios, sinais de depressão respiratória ou bradicardia;
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Providenciar:
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Encaminhamento imediato para avaliação médica;
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Monitoramento contínuo, acesso venoso, oxigênio suplementar;
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Registrar:
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Nome e dose da substância ingerida (se conhecida);
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Tempo desde a exposição, sintomas, medidas já adotadas (ex: vômito induzido, carvão ativado).
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✅ O que aprendemos
O discriminador “História de Sobredosagem ou Envenenamento” é fundamental para garantir que pacientes com exposição a agentes tóxicos, mesmo sem sintomas iniciais, recebam atendimento prioritário e vigilância adequada, prevenindo evolução para quadros graves como insuficiência respiratória, convulsões, arritmias ou morte.
Sua correta aplicação no Protocolo de Manchester permite ao enfermeiro atuar com precisão, responsabilidade e segurança, salvando vidas por meio de uma triagem precoce e eficaz.