História de T.C.E. – Traumatismo Crânio-Encefálico

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco neurológico

O discriminador “História de T.C.E.” é utilizado sempre que o paciente relata, ou há evidência de, qualquer impacto na cabeça, independentemente da gravidade aparente ou da presença de sintomas imediatos.

Segundo o Protocolo de Manchester, todo episódio de traumatismo envolvendo o crânio deve ser tratado como potencialmente grave, mesmo que o paciente esteja consciente e orientado, pois algumas lesões neurológicas têm evolução lenta e podem manifestar sintomas horas após o trauma, como ocorre nos hematomas subdurais ou concussões.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

História de T.C.E. – Traumatismo Crânio-Encefálico:
Qualquer relato ou observação de impacto, queda, colisão ou pancada na cabeça, independentemente da presença de sintomas no momento da triagem.
A aplicação do discriminador é mandatória quando:

  • relato claro de trauma na região da cabeça (ocipital, frontal, parietal, lateral);

  • A pessoa sofreu queda, acidente ou agressão com impacto direto no crânio;

  • Existem marcas visíveis de trauma (hematoma, ferida, edema, escoriação) no couro cabeludo ou face;

  • O paciente não se lembra do que aconteceu (amnésia pós-trauma).


🧠 Causas mais comuns de T.C.E.

🔴 Acidentes e quedas:

  • Quedas da própria altura (com batida de cabeça);

  • Queda de escadas, telhados, árvores, andaimes;

  • Colisões em esportes de contato ou acidentes em ciclistas/motociclistas.

🟠 Agressões físicas:

  • Pancadas com objetos, socos, empurrões com impacto na cabeça.

🔴 Acidentes de trânsito:

  • Ejeção de veículos, motociclistas sem capacete, capotamentos;

  • Lesões associadas ao uso inadequado de cinto de segurança ou ausência de airbag.

⚠️ Pacientes anticoagulados, idosos e crianças têm maior risco de hemorragia intracraniana, mesmo após traumas aparentemente leves.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Perguntar sobre qualquer trauma recente na cabeça:

    • “Você bateu a cabeça? Lembra como foi?”

    • “Estava usando capacete? Teve tontura, desmaiou ou vomitou?”

    • “Alguém viu o acidente acontecer?”

  2. Observar sinais físicos compatíveis com T.C.E.:

    • Hematomas, feridas, sangramentos, otorreia (saída de líquido pelo ouvido), equimose periorbitária (“olho de guaxinim”), hematoma retroauricular (sinal de Battle).

  3. Avaliar o estado neurológico e sinais vitais:

    • Nível de consciência (Escala de Glasgow);

    • Confusão mental, amnésia, sonolência, fala arrastada;

    • Dor de cabeça progressiva, vômitos, crises convulsivas.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

Esse discriminador pode ser utilizado nos fluxogramas:

  • Traumatismo craniano / colisão com perda de consciência

  • Dor de cabeça após queda ou impacto

  • Alteração do nível de consciência com história de trauma

  • Paciente encontrado inconsciente após queda

  • Vítima de agressão física


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • T.C.E. com:

    • Rebaixamento do nível de consciência (Glasgow ≤ 8);

    • Vômitos persistentes, convulsões, pupilas assimétricas;

    • Sinais de fratura de base de crânio (líquido claro por nariz/ouvido);

    • Instabilidade hemodinâmica com suspeita de lesão cerebral.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • T.C.E. com:

    • Perda de consciência transitória;

    • Amnésia do evento, cefaleia progressiva;

    • Uso de anticoagulantes (ex: varfarina, rivaroxabana);

    • Vômitos isolados, comportamento alterado.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • T.C.E. leve, sem sinais neurológicos, mas com:

    • Queixa de dor local, presença de hematoma pequeno;

    • Criança ou idoso em bom estado geral, sem vômitos nem sonolência;

    • Observação de conduta.

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

  • Trauma muito leve, sem sintomas ou risco:

    • Paciente adulto, orientado, sem sinais de impacto visível ou sintomas, apenas deseja reavaliação.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Idoso de 78 anos, caiu no banheiro, bateu a cabeça e foi encontrado inconsciente. Glasgow 9, PA 90/60 mmHg, vômito em jato, pupila direita dilatada.

➡️ Fluxograma: “Traumatismo craniano com rebaixamento”
➡️ Discriminador: “História de T.C.E.”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato + neuroavaliação urgente


Situação 2 – Classificação Laranja

Homem de 34 anos, caiu de bicicleta, bateu a cabeça (sem capacete), teve desmaio breve, está alerta, mas com dor de cabeça e vômito. Glasgow 15.

➡️ Fluxograma: “T.C.E. com perda de consciência”
➡️ Discriminador: “História de T.C.E.”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Amarela

Criança de 7 anos, caiu da cama (altura de 50 cm), bateu a testa. Está ativa, sem vômito, sem sonolência. Pequeno galo frontal.

➡️ Fluxograma: “Trauma leve em criança com bom estado geral”
➡️ Discriminador: “História de T.C.E.”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar:

    • Escala de Glasgow, PA, FC, FR, SpO₂;

    • Pupilas, vômitos, resposta à dor, presença de sangue ou secreções;

  • Verificar:

    • Uso de anticoagulantes ou histórico de convulsão;

    • Idade do paciente (idoso ou criança);

    • Dinâmica do trauma;

  • Providenciar:

    • Monitoramento contínuo em caso de risco elevado;

    • Encaminhamento prioritário para avaliação médica e exames de imagem (TC de crânio);

  • Registrar:

    • Detalhes da queda/impacto, achados físicos, sinais neurológicos, tempo do evento.


✅ O que aprendemos

O discriminador “História de T.C.E.” é um dos mais sensíveis e fundamentais do Protocolo de Manchester, pois garante que nenhum trauma craniano seja subestimado, mesmo quando os sinais clínicos são inicialmente discretos.

Sua aplicação rigorosa protege pacientes contra deteriorações neurológicas silenciosas e permite intervenções rápidas e eficazes, com base no mecanismo do trauma, estado clínico e vulnerabilidade individual.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 23:16