História de Traumatismo

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e avaliação do risco envolvido no evento traumático recente

O discriminador “História de Traumatismo” se aplica a qualquer relato de evento traumático recente, como quedas, colisões, pancadas, lesões por esmagamento, torções ou acidentes domésticos, esportivos, ocupacionais ou de trânsito — mesmo que não haja sinais externos evidentes no momento da triagem.

O Protocolo de Manchester orienta que todo trauma físico deve ser registrado e analisado com atenção, pois lesões internas ou complicações podem não se manifestar de forma imediata, principalmente em pacientes mais vulneráveis, como idosos, crianças, gestantes e pessoas em uso de anticoagulantes.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

História de Traumatismo:
Qualquer evento recente em que o paciente sofreu impacto, queda, pancada, torção ou outro tipo de agressão física.
A ausência de lesões visíveis não exclui a possibilidade de dano interno, fraturas, contusões profundas, hematomas ou outras complicações.


🧠 Situações clínicas comuns de trauma recente

🔴 Traumas de alta energia:

  • Acidente de carro, moto ou bicicleta;

  • Queda de altura superior a 2 metros;

  • Atropelamento com ou sem fratura aparente.

🟠 Traumas de baixa energia, mas com risco oculto:

  • Queda da própria altura em paciente idoso ou anticoagulado;

  • Pancada torácica ou abdominal sem sinais imediatos;

  • Lesões esportivas com limitação funcional súbita.

🟡 Traumas em áreas sensíveis:

  • Região cervical (coluna), crânio, tórax, abdômen, articulações grandes (joelho, quadril, ombro);

  • Mão dominante, dedos, articulações de grande mobilidade.

⚠️ Mesmo pequenas quedas em pacientes com osteoporose, coagulopatias ou uso de anticoagulantes podem gerar fraturas ou hematomas graves.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Perguntar diretamente sobre qualquer trauma recente:

    • “Você sofreu alguma queda ou pancada nos últimos dias?”

    • “Estava em movimento? Foi empurrado ou escorregou?”

    • “Está com dor desde um acidente recente?”

  2. Investigar o mecanismo do trauma:

    • Como foi a queda ou colisão?

    • De que altura? Com que parte do corpo?

    • Usava cinto de segurança, capacete, EPI?

  3. Avaliar sinais e sintomas associados:

    • Dor localizada, edema, hematoma, deformidade visível;

    • Restrição de movimento, crepitação, instabilidade;

    • Náuseas, sonolência ou cefaleia após impacto na cabeça.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

Este discriminador pode ser usado nos fluxogramas:

  • Traumatismo em geral / politrauma

  • Dor em membro após queda

  • TCE (traumatismo crânio-encefálico)

  • Dor abdominal ou torácica após impacto

  • Paciente encontrado após acidente ou agressão


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • História de trauma + sinais de instabilidade:

    • PA < 90 mmHg, FC > 130 bpm, confusão mental;

    • Hemorragia ativa, fratura exposta, TCE com rebaixamento.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Trauma recente +:

    • Dor intensa, deformidade, limitação funcional importante;

    • Uso de anticoagulantes ou comorbidades graves;

    • Localização crítica (coluna, abdômen, tórax, crânio).

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Trauma leve com dor localizada, sem sinais de alarme:

    • Hematomas, escoriações, dor ao movimento, mas com sinais vitais normais.

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

  • Pequeno trauma, sem dor, apenas reavaliação ou solicitação de atestado.

    • Ex: batida leve no carro sem sintomas; queda sem dor.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Idoso de 80 anos, caiu da escada, batendo o peito. Refere dor torácica intensa, sudorese, PA 85/55 mmHg, FR 30, confuso. Uso de anticoagulante.

➡️ Fluxograma: “Trauma torácico com sinais de instabilidade”
➡️ Discriminador: “História de Traumatismo”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato


Situação 2 – Classificação Laranja

Jovem de 25 anos, jogando futebol, torceu o joelho. Dor intensa, incapaz de apoiar o membro. Sinais vitais normais.

➡️ Fluxograma: “Lesão articular grave com limitação funcional”
➡️ Discriminador: “História de Traumatismo”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Amarela

Mulher de 40 anos, escorregou em casa e bateu o quadril. Caminha com dificuldade leve. Dor moderada, sem edema, sinais vitais normais.

➡️ Fluxograma: “Trauma de quadril com dor localizada”
➡️ Discriminador: “História de Traumatismo”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar:

    • Local do trauma, dor, edema, funcionalidade;

    • Sinais vitais completos e Escala de Dor;

  • Investigar:

    • Mecanismo do trauma e fatores de risco individuais (anticoagulação, idade, comorbidades);

  • Providenciar:

    • Encaminhamento adequado, priorizando local e gravidade do trauma;

    • Acesso venoso, analgesia e imobilização (quando necessário);

  • Registrar:

    • Detalhes do acidente, sinais clínicos, uso de medicamentos e classificação definida.


✅ O que aprendemos

O discriminador “História de Traumatismo” é essencial para garantir que lesões ocultas ou potenciais complicações em eventos traumáticos recentes sejam detectadas precocemente. A abordagem correta, mesmo nos traumas leves, evita atrasos no diagnóstico de fraturas, hemorragias internas ou lesões neurológicas, assegurando um cuidado seguro e humanizado.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 23:19