91 - História de Viagens ao Estrangeiro (últimos três meses)
História de Viagens ao Estrangeiro (últimos três meses)
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e avaliação epidemiológica
O discriminador “História de Viagens ao Estrangeiro” deve ser aplicado sempre que o paciente tiver estado fora do país nos últimos três meses, independentemente da queixa clínica apresentada no momento da triagem.
Esse critério funciona como um alerta epidemiológico, pois viagens internacionais podem expor o indivíduo a agentes infecciosos incomuns, surtos regionais ou doenças endêmicas que não circulam amplamente no Brasil — como malária, febre amarela silvestre, dengue hemorrágica de outros sorotipos, tuberculose multirresistente, cólera, febre tifoide, e até infecções virais emergentes, como Ebola, Marburg, MERS-CoV ou variantes da COVID-19.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
História de Viagens ao Estrangeiro:
Qualquer relato de viagem internacional ocorrida nos últimos 90 dias, especialmente para países ou regiões com:
Surtos declarados de doenças infecciosas;
Doenças endêmicas específicas (ex: malária, cólera, febre tifoide);
Situações sanitárias precárias ou ausência de vacinação obrigatória;
Contato com animais, águas contaminadas ou alimentos inseguros.
🧠 Importância clínica e epidemiológica do discriminador
✅ Permite identificar casos suspeitos antes da manifestação plena dos sintomas
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Muitas doenças infecciosas possuem período de incubação longo (ex: hepatite A, dengue, malária);
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O paciente pode estar assintomático ou oligossintomático e ainda assim representar risco de contaminação comunitária.
✅ Favorece o isolamento precoce em casos de doenças de alto risco
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Evita exposição de outros pacientes e profissionais a doenças de transmissão aérea, por contato ou via fecal-oral.
✅ Ajuda na decisão sobre exames laboratoriais e notificações compulsórias
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Ex: febre sem causa aparente em viajante vindo da África ou Ásia pode exigir teste para malária ou filovírus, conforme orientações da OMS/MS.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o enfermeiro deve:
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Perguntar diretamente sobre viagem recente:
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“Você viajou para fora do país nos últimos três meses?”
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“Para qual país ou região você foi?”
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“Teve contato com pessoas doentes, animais, água de rio ou alimentos diferentes?”
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“Recebeu alguma vacina antes da viagem?”
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Investigar se há sintomas compatíveis com doenças infecciosas:
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Febre, exantema, dor de cabeça intensa, icterícia, tosse seca persistente, diarreia, vômitos, mialgia, sangramentos.
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Observar o calendário epidemiológico:
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Confirmar se há alertas de surtos internacionais vigentes (ex: zika, ebola, COVID-19, dengue tipo 4).
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🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
Este discriminador pode ser utilizado nos fluxogramas:
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Febre de origem desconhecida
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Exantema generalizado / febre + rash
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Doença diarreica aguda após viagem
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Dificuldade respiratória súbita com histórico de viagem
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Sintomas gripais em viajantes / suspeita de doenças emergentes
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Queixas inespecíficas em paciente com exposição ambiental em outro país
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
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Viagem recente + sinais graves de infecção:
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Febre alta, hipotensão, confusão mental, sangramentos, icterícia;
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Viajante de área com Ebola, Marburg, febre de Lassa, etc.
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🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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Viagem recente + sintomas moderados:
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Febre persistente, dor de cabeça forte, exantema, diarreia grave, dor abdominal intensa;
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História de viagem para área de malária, dengue hemorrágica, leptospirose.
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🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
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Viagem recente + sintomas leves:
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Diarreia leve, mal-estar, cefaleia, sem febre ou alterações de sinais vitais;
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Reavaliação após viagem de risco, mas sem sinais clínicos agudos.
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🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos
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Viagem recente sem sintomas, comparece para esclarecimento, consulta de rotina ou exames programados.
📋 Exemplos clínicos aplicados
✅ Situação 1 – Classificação Vermelha
Homem de 45 anos, voltou do Congo há 8 dias, apresenta febre 39,5 °C, mialgia, sangramento nasal e confusão. PA 85/60 mmHg, FC 122 bpm.
➡️ Fluxograma: “Febre hemorrágica viral – viajante de área de risco”
➡️ Discriminador: “História de Viagens ao Estrangeiro”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato + isolamento
✅ Situação 2 – Classificação Laranja
Mulher de 30 anos, retornou do Peru há 5 dias, apresenta diarreia intensa, dor abdominal e febre 38,8 °C. Sem hipotensão.
➡️ Fluxograma: “Gastroenterite de origem infecciosa”
➡️ Discriminador: “História de Viagens ao Estrangeiro”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos
✅ Situação 3 – Classificação Amarela
Turista europeu, procurou a unidade com dor de cabeça leve e febre intermitente há 3 dias. Viajou para Manaus, fez trilhas em área de mata. Sinais vitais normais.
➡️ Fluxograma: “Febre + histórico de exposição ambiental”
➡️ Discriminador: “História de Viagens ao Estrangeiro”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
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Avaliar:
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Data da viagem, destino, sintomas associados e locais visitados;
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Presença de febre, dor, exantema, icterícia, alterações de consciência;
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Investigar:
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Vacinação prévia (febre amarela, hepatite A, tifoide);
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Contato com rios, animais, feiras, comida de rua;
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Providenciar:
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Isolamento respiratório ou por contato (se indicado);
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Uso de EPIs conforme suspeita epidemiológica;
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Notificação imediata à equipe médica e, se necessário, à vigilância em saúde;
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Registrar:
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Detalhes da viagem, sintomas atuais, tempo de incubação e encaminhamentos.
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✅ O que aprendemos
O discriminador “História de Viagens ao Estrangeiro” reforça o papel do enfermeiro classificador como sentinela da saúde coletiva, permitindo a detecção precoce de doenças infecciosas emergentes ou reemergentes que possam comprometer não apenas o paciente, mas toda a comunidade.
Ao ser corretamente aplicado no Protocolo de Manchester, esse critério permite ações rápidas, seguras e responsáveis, respeitando o contexto epidemiológico global.