93 - Inalação de Fumaça
Inalação de Fumaça
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco respiratório e sistêmico
O discriminador “Inalação de Fumaça” deve ser aplicado em todos os casos em que o paciente esteve em ambiente fechado com presença de fumaça, mesmo que não apresente sintomas evidentes no momento da triagem.
A inalação de fumaça é um evento clínico potencialmente fatal, pois pode causar lesão térmica das vias aéreas, intoxicação por monóxido de carbono, cianeto e irritantes químicos, além de levar rapidamente à obstrução respiratória e insuficiência ventilatória aguda.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
Inalação de Fumaça:
Deve-se presumir que houve inalação de fumaça sempre que a pessoa esteve confinada em um ambiente com fumaça intensa, especialmente em:
Incêndios residenciais ou industriais;
Carros incendiados ou ambientes fechados com queima de materiais;
Ambientes com combustão de plásticos, tintas, solventes, tecidos ou derivados de petróleo.
A presença de fuligem em nariz, boca ou escarro é um sinal de alta relevância clínica, mas a ausência desses sinais não exclui risco grave.
🧠 Fisiopatologia e riscos clínicos associados
🔴 Lesão térmica das vias aéreas superiores:
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Ocorre por exposição ao ar quente e gases irritantes;
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Pode causar edema de glote, obstrução laringotraqueal e estridor respiratório.
🟠 Intoxicação sistêmica:
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Monóxido de carbono (CO): reduz a oxigenação tecidual → hipóxia silenciosa.
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Cianeto: liberado na queima de plásticos e têxteis → falência celular e colapso cardiovascular.
🟡 Broncoespasmo e inflamação alveolar:
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Agravamento de asma, DPOC ou desenvolvimento de síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA).
⚠️ Pacientes podem apresentar-se inicialmente assintomáticos, mas desenvolver edema de vias aéreas em poucas horas, com risco de intubação de urgência.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o enfermeiro deve:
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Perguntar claramente sobre exposição à fumaça:
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“Você estava dentro de algum lugar com fumaça ou incêndio?”
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“Estava consciente durante todo o tempo?”
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“Sente a garganta ou o peito queimando?”
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“Tossiu muito ou escarrou algo escuro?”
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Observar sinais clínicos importantes:
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Fuligem em narinas, boca ou roupa;
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Tosse seca, rouquidão, voz abafada, estridor;
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Sialorreia, dispneia, taquipneia, uso de musculatura acessória;
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Queimaduras faciais, vibrissas queimadas, cianose.
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Investigar a dinâmica do incidente:
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Tempo de exposição, tipo de material queimado, local fechado ou aberto.
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🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
Este discriminador pode ser utilizado nos seguintes fluxogramas:
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Dificuldade respiratória súbita / estridor
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Queimadura por inalação / trauma térmico
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Exposição a gases tóxicos ou fumaça
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Paciente encontrado inconsciente em local de incêndio
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
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Exposição confirmada +:
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Rebaixamento do nível de consciência;
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Estridor, rouquidão, uso de musculatura acessória;
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Queimaduras faciais + sinais de obstrução de vias aéreas;
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Saturação < 92% mesmo com oxigênio.
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🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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Paciente consciente, com:
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História clara de exposição prolongada em ambiente fechado;
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Tosse, rouquidão, dor torácica leve a moderada;
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Escarro com fuligem, sem sinais de hipóxia aguda;
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Sem sinais imediatos de obstrução, mas com risco iminente.
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🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
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Exposição leve, em ambiente ventilado:
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Sem sintomas respiratórios;
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Sem queixas significativas;
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Comparece por precaução.
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📋 Exemplos clínicos aplicados
✅ Situação 1 – Classificação Vermelha
Homem de 50 anos, retirado inconsciente de incêndio em cozinha fechada. Apresenta queimaduras faciais, respiração ruidosa, pulso fraco, SpO₂ 87%.
➡️ Fluxograma: “Obstrução de via aérea por inalação”
➡️ Discriminador: “Inalação de Fumaça”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato + suporte avançado
✅ Situação 2 – Classificação Laranja
Mulher de 32 anos, consciente, tossindo, com rouquidão e fuligem visível no nariz. Refere ardência na garganta. Exposta por 10 minutos em quarto com fumaça densa.
➡️ Fluxograma: “Queimadura de via aérea / inalação tóxica”
➡️ Discriminador: “Inalação de Fumaça”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos
✅ Situação 3 – Classificação Amarela
Jovem de 20 anos, entrou por alguns segundos em cômodo com cortina pegando fogo. Tossiu um pouco na hora, mas não tem sintomas agora. Está estável.
➡️ Fluxograma: “Exposição leve a fumaça – sem sintomas clínicos”
➡️ Discriminador: “Inalação de Fumaça”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
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Avaliar:
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Sinais respiratórios: FR, SpO₂, estridor, voz abafada;
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Sinais vitais gerais e nível de consciência (Glasgow);
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Investigar:
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Tempo de exposição, local fechado/aberto, materiais queimados;
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Providenciar:
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Oxigenoterapia com máscara de alto fluxo (não reinalante) se necessário;
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Encaminhamento rápido para avaliação médica;
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Isolamento e suporte ventilatório (em casos graves);
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Registrar:
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Situação do resgate, sinais observados, tempo de exposição e evolução.
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✅ O que aprendemos
O discriminador “Inalação de Fumaça” deve ser aplicado com extrema cautela e prontidão, mesmo em casos aparentemente leves, pois a obstrução das vias aéreas ou intoxicação sistêmica pode evoluir silenciosamente.
Sua correta identificação no Protocolo de Manchester permite ao profissional de enfermagem agir rapidamente, protegendo a vida do paciente e evitando deteriorações clínicas súbitas.