Incapacidade de Suportar Peso

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco ortopédico e neurológico

O discriminador “Incapacidade de Suportar Peso” é aplicado quando o paciente não consegue carregar o peso do próprio corpo sobre um ou ambos os membros inferiores, mesmo que esteja acordado e consciente.

Essa incapacidade pode ter origem musculoesquelética (fraturas, luxações, rupturas ligamentares), neurológica (déficits motores) ou sistêmica (infecções articulares, dores severas, fraqueza muscular). Segundo o Protocolo de Manchester, essa condição representa perda funcional importante e risco de quedas, lesões adicionais e dor intensa, e deve ser tratada com prioridade elevada na triagem.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Incapacidade de Suportar Peso:
Incapacidade de carregar o peso corporal sobre os membros inferiores, unilateral ou bilateralmente.
Pode ser causada por dor, lesão articular, fratura, edema, comprometimento neurológico, entre outras condições.

Importante: o paciente não consegue manter-se em pé ou deambular mesmo que por alguns passos, com ou sem ajuda.


🧠 Condições clínicas mais associadas à incapacidade de suportar peso

🔴 Traumáticas / Ortopédicas:

  • Fratura de quadril, fêmur, tíbia, tornozelo ou pelve;

  • Luxações (ex: joelho, quadril, tornozelo);

  • Rupturas ligamentares graves (ex: ligamento cruzado anterior);

  • Entorses graves com edema ou instabilidade articular.

🟠 Infecciosas / Inflamatórias:

  • Artrite séptica (em qualquer articulação de carga);

  • Gota aguda, pseudogota ou celulite periartricular;

  • Abscesso muscular profundo ou miosite.

🟡 Neurológicas ou sistêmicas:

  • Acidente vascular cerebral (hemiparesia aguda);

  • Síndrome de Guillain-Barré, neuropatias periféricas;

  • Miopatias inflamatórias ou medicamentosas;

  • Fadiga muscular extrema em idosos frágeis ou descompensados.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Perguntar diretamente sobre a capacidade funcional:

    • “Você consegue ficar de pé com apoio?”

    • “Consegue dar alguns passos, mesmo com dor?”

    • “Antes de hoje você caminhava normalmente?”

  2. Observar e testar com segurança:

    • Caso o paciente tente caminhar ou apoiar-se e não consiga sustentar o corpo, o critério está presente.

  3. Verificar sinais associados:

    • Edema, deformidade, dor intensa, sinais inflamatórios, déficit de força ou sensibilidade, calafrios e febre.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

Esse discriminador pode ser utilizado nos seguintes fluxogramas:

  • Dor em membro inferior com limitação funcional

  • Trauma de quadril, joelho ou tornozelo com perda de mobilidade

  • Infecção articular com impotência funcional

  • Déficit motor súbito (neurológico)

  • Paciente idoso com dor e incapacidade para caminhar


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Incapacidade de suportar peso +:

    • Dor intensa associada a sinais de sepse (febre alta, confusão mental, taquicardia);

    • Sinais de fratura instável + hipotensão ou palidez acentuada;

    • Déficit neurológico súbito (AVC com hemiparesia total).

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Incapacidade de suportar peso com:

    • Dor severa, edema, deformidade visível (suspeita de fratura ou luxação);

    • Quadro infeccioso local com calor e limitação completa de mobilidade;

    • Hematoma extenso pós-trauma recente.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Perda parcial da sustentação, mas sem sinais de gravidade:

    • Entorse leve a moderada;

    • Dor que impede andar por proteção articular, mas sem sinais inflamatórios intensos.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Homem de 70 anos, caiu da própria altura, refere dor em quadril direito e não consegue ficar de pé nem com apoio. Está pálido, PA 90/60 mmHg, FC 112 bpm.

➡️ Fluxograma: “Trauma com fratura instável”
➡️ Discriminador: “Incapacidade de Suportar Peso”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato


Situação 2 – Classificação Laranja

Paciente de 52 anos, com edema intenso e dor no tornozelo após entorse. Não consegue pisar ou apoiar o pé. Sinais vitais estáveis, sem deformidades aparentes.

➡️ Fluxograma: “Trauma articular com perda funcional”
➡️ Discriminador: “Incapacidade de Suportar Peso”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Amarela

Jovem de 28 anos, após treino de corrida, apresenta dor moderada no joelho esquerdo, evita pisar por dor. Caminha com dificuldade e uso de bengala.

➡️ Fluxograma: “Dor articular com função preservada parcialmente”
➡️ Discriminador: “Incapacidade de Suportar Peso”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar:

    • Mobilidade, dor à palpação, amplitude de movimento e estabilidade do membro;

    • Presença de sinais inflamatórios locais ou sistêmicos;

  • Verificar:

    • Histórico de trauma, doenças reumatológicas ou infecções recentes;

    • Uso de medicações anticoagulantes ou doenças neuromusculares;

  • Providenciar:

    • Transporte com segurança (cadeira de rodas ou maca);

    • Imobilização provisória, analgesia, acesso venoso se indicado;

  • Registrar:

    • Capacidade funcional, sinais clínicos, tempo de início e eventuais fatores desencadeantes.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Incapacidade de Suportar Peso” sinaliza perda funcional súbita e risco ortopédico, neurológico ou infeccioso relevante, devendo ser aplicado com atenção na triagem.

Sua correta utilização no Protocolo de Manchester garante que pacientes com dificuldade real de mobilidade recebam atendimento rápido, seguro e adequado, prevenindo quedas, agravamento do quadro e sofrimento desnecessário.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 23:41