Início Repentino

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critério de risco em sintomas de instalação súbita

O discriminador “Início Repentino” é utilizado quando qualquer sinal ou sintoma aparece de forma súbita, em segundos ou poucos minutos, muitas vezes sem aviso prévio e com impacto significativo sobre o bem-estar ou a funcionalidade do paciente.

Segundo o Protocolo de Manchester, esse critério é um marcador de urgência, pois muitas condições clínicas graves se manifestam subitamente, como acidente vascular cerebral (AVC), infarto agudo do miocárdio, dissecção de aorta, pneumotórax espontâneo, epilepsia, entre outras.

⚠️ A instalação súbita dos sintomas pode até acordar o paciente durante o sono, o que por si só aumenta a suspeita de gravidade.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Início Repentino:
Surgimento inesperado e súbito de sintomas ou sinais clínicos, percebido pelo paciente como início abrupto, em questão de segundos ou poucos minutos.

Pode envolver:

  • Dor súbita (torácica, abdominal, cefaleia);

  • Fraqueza, tontura ou visão turva súbita;

  • Perda de consciência, paralisia, confusão;

  • Falta de ar ou opressão torácica repentina.


🧠 Condições clínicas com início repentino mais comuns

🔴 Neurológicas:

  • AVC isquêmico ou hemorrágico;

  • Convulsões (inclusive crise parcial complexa);

  • Ataque isquêmico transitório (AIT);

  • Enxaqueca com aura ou cefaleia em trovoada (suspeita de hemorragia subaracnóidea).

🔴 Cardiovasculares:

  • Infarto agudo do miocárdio;

  • Dissecção de aorta;

  • Arritmias cardíacas sintomáticas (taquiarritmias ou bradiarritmias graves);

  • Embolia pulmonar.

🔴 Respiratórias:

  • Pneumotórax espontâneo;

  • Edema agudo de pulmão;

  • Crise asmática ou broncoespasmo severo.

🟠 Outras causas:

  • Torsão testicular ou ovariana;

  • Cólica renal ou biliar intensa de início súbito;

  • Anafilaxia ou reação alérgica grave.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Perguntar sobre o tempo de início dos sintomas:

    • “Você sentiu esse sintoma de repente?”

    • “Estava tudo normal antes de começar?”

    • “Estava dormindo quando acordou com o sintoma?”

  2. Investigar o tipo de sintoma:

    • Dor aguda (torácica, cefaleia, abdominal);

    • Fraqueza ou formigamento em um lado do corpo;

    • Confusão mental, dificuldade de falar ou andar;

    • Queda da saturação, palidez súbita, síncope.

  3. Observar sinais de urgência:

    • Nível de consciência, alteração da fala, coloração da pele, frequência respiratória e padrão ventilatório, sinais neurológicos.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

Esse discriminador pode ser aplicado nos seguintes fluxogramas:

  • Dor torácica com suspeita de síndrome coronariana aguda

  • Déficit neurológico focal (AVC, AIT)

  • Dispneia de início súbito / pneumotórax

  • Cefaleia intensa e repentina

  • Palpitações ou síncope

  • Dor abdominal aguda de início abrupto


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Início repentino de sintomas com:

    • Déficit neurológico focal, rebaixamento de consciência;

    • Dor torácica intensa + dispneia ou palidez;

    • Dispneia súbita + cianose ou SpO₂ < 90%;

    • Cefaleia súbita e violenta (“em trovoada”).

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Início súbito de dor ou mal-estar com:

    • Sinais vitais ainda estáveis, mas queixa sugestiva de urgência;

    • Dor abdominal intensa ou cólica renal de início brusco;

    • Palpitações com mal-estar, mas sem rebaixamento.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Início repentino de sintoma leve/moderado:

    • Sem sinais de alarme, paciente ativo e responsivo;

    • Ex: torcicolo súbito, formigamento leve transitório, dor em cólica de intensidade leve.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Homem de 62 anos, relata início súbito de fraqueza no braço esquerdo e fala embolada há 10 minutos. Pressão arterial elevada, pupilas assimétricas.

➡️ Fluxograma: “AVC agudo”
➡️ Discriminador: “Início Repentino”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato com protocolo de trombólise


Situação 2 – Classificação Laranja

Mulher de 50 anos, refere dor torácica aguda, em queimação, que começou de forma súbita ao acordar. PA 140/85 mmHg, SpO₂ 95%, FC 112 bpm.

➡️ Fluxograma: “Dor torácica com início súbito”
➡️ Discriminador: “Início Repentino”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Amarela

Jovem de 25 anos, acordou com dor aguda no pescoço ao virar a cabeça. Sem alterações neurológicas, sinais vitais normais.

➡️ Fluxograma: “Dor cervical de início agudo”
➡️ Discriminador: “Início Repentino”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar:

    • Tempo exato do início dos sintomas, intensidade, evolução;

    • Sinais vitais, nível de consciência, saturação de O₂, estado neurológico;

  • Investigar:

    • Doenças cardiovasculares, neurológicas ou respiratórias prévias;

    • Uso de medicamentos, presença de fatores desencadeantes (esforço, estresse, repouso);

  • Providenciar:

    • Acesso venoso, oxigênio, ECG, escala de AVC (ex: Cincinnati ou FAST) se aplicável;

    • Encaminhamento imediato para sala de emergência quando necessário;

  • Registrar:

    • Descrição clara do início dos sintomas, horário preciso e manifestação clínica.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Início Repentino” é um dos mais importantes no contexto de triagem, pois está frequentemente relacionado a condições clínicas agudas de alto risco, como AVC, infarto ou embolia.

Sua aplicação correta no Protocolo de Manchester permite a detecção precoce, estratificação adequada e atendimento imediato a pacientes potencialmente graves, melhorando os desfechos e salvando vidas.


Última atualização: sexta-feira, 4 abr. 2025, 00:06