Instalação Súbita

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critério de priorização de sintomas com menos de 12 horas de evolução

O discriminador “Instalação Súbita” deve ser aplicado quando o paciente relata que o(s) sintoma(s) começou(aram) de forma recente — há menos de 12 horas —, ainda que não tenham se iniciado de modo abrupto como no caso de “início repentino”.

Segundo o Protocolo de Manchester, a identificação precoce de sintomas em fase inicial permite ao enfermeiro classificador avaliar o risco de agravamento rápido, especialmente em doenças infecciosas, abdominais, torácicas, cardiovasculares e neurológicas.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Instalação Súbita:
Início de qualquer sintoma ou sinal clínico há menos de 12 horas, com ou sem evolução progressiva.
Pode envolver dor, febre, falta de ar, mal-estar, vômitos, fraqueza, confusão, entre outros sinais clínicos, que surgem de forma relativamente rápida, porém não necessariamente imediata.

A instalação súbita não exige que os sintomas sejam abruptos (como no início repentino), mas sim que tenham se iniciado recentemente, no intervalo de até meia jornada clínica (12 horas).


🧠 Condições clínicas com instalação súbita comum

🟠 Infecciosas:

  • Febre alta com início recente;

  • Infecção urinária aguda;

  • Otite média, amigdalite, mastite, celulite;

  • Dengue, viroses agudas ou gastroenterites.

🟡 Abdominais:

  • Dor abdominal há poucas horas (apendicite inicial, colecistite, cólica renal);

  • Náuseas, vômitos ou diarreia súbitos.

🔴 Respiratórias / cardiovasculares:

  • Tosse, febre e dispneia iniciadas nas últimas horas;

  • Dor torácica de início recente;

  • Quadro gripal com fatores de risco (DPOC, gestantes, imunossuprimidos).

🟠 Neurológicas:

  • Cefaleia de início recente;

  • Tontura, vertigem, visão borrada iniciadas nas últimas horas.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Perguntar com precisão sobre o tempo de início dos sintomas:

    • “Quando isso começou?”

    • “Faz quanto tempo que você percebeu esse sintoma?”

    • “Estava bem antes disso acontecer?”

  2. Classificar se os sintomas têm menos de 12 horas de evolução:

    • Se sim, o discriminador pode ser aplicado;

    • Se surgiram há dias, considera-se “instalação progressiva” ou crônica.

  3. Verificar a intensidade e progressão:

    • Está piorando rapidamente?

    • Está associado a febre, prostração ou outros sinais de alarme?


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

Este discriminador pode ser utilizado nos seguintes fluxogramas:

  • Dor abdominal aguda com menos de 12h de evolução

  • Infecções com febre recente (otite, faringite, pielonefrite)

  • Dispneia com início recente em pacientes com risco respiratório

  • Síndromes virais agudas (gripal, dengue, COVID-19)

  • Alteração do estado geral de início nas últimas horas


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Instalação súbita +:

    • Rebaixamento do nível de consciência, instabilidade hemodinâmica, dor torácica intensa, sinais de sepse ou hipóxia.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Sintomas com menos de 12 horas +:

    • Febre alta com calafrios, dispneia moderada, dor intensa localizada;

    • Sinais de infecção com dor forte e progressiva (mastite, abscesso, dor lombar com febre);

    • Quadro infeccioso recente em pacientes imunocomprometidos.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Sintomas com menos de 12 horas, sem sinais de gravidade:

    • Dor leve a moderada, febre baixa, náuseas ou vômitos intermitentes, início de infecção urinária sem prostração.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Laranja

Homem de 46 anos, refere início de febre e dor lombar há 6 horas. Dor forte ao toque, calafrios e diurese reduzida.

➡️ Fluxograma: “Pielonefrite com sinais iniciais de infecção grave”
➡️ Discriminador: “Instalação Súbita”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 2 – Classificação Amarela

Mulher de 30 anos, refere dor em quadrante inferior direito há 4 horas, leve a moderada, sem vômitos. Afebril. Sinais vitais estáveis.

➡️ Fluxograma: “Dor abdominal de instalação recente”
➡️ Discriminador: “Instalação Súbita”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


Situação 3 – Classificação Verde

Jovem de 20 anos, com início de cefaleia e coriza há 8 horas, sem febre, sem rigidez de nuca, sem vômitos. Dor leve.

➡️ Fluxograma: “Síndrome viral leve”
➡️ Discriminador: “Instalação Súbita”
➡️ Classificação: verde – atendimento em até 120 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar:

    • Hora exata do início dos sintomas, sinais vitais, intensidade da dor, presença de febre ou outros sintomas associados;

  • Investigar:

    • Fatores de risco (doenças prévias, imunodeficiência, idade avançada, gravidez);

    • Evolução dos sintomas: está se intensificando? É constante ou oscilante?

  • Providenciar:

    • Encaminhamento para atendimento prioritário em caso de agravamento;

    • Medidas iniciais conforme protocolos locais (analgesia, hidratação, coleta de exames);

  • Registrar:

    • Tempo de instalação dos sintomas, quadro clínico atual, classificação atribuída e justificativa.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Instalação Súbita” é essencial para identificar condições clínicas que ainda estão em fase inicial, mas que podem evoluir rapidamente para quadros graves, como infecções, dores abdominais, síndromes virais, entre outros.

Sua correta aplicação no Protocolo de Manchester permite ao profissional de triagem prever o risco de agravamento e priorizar o atendimento com base no tempo de evolução dos sintomas — um elemento clínico crucial.


Última atualização: sexta-feira, 4 abr. 2025, 00:07