106 - Lesão Elétrica
Lesão Elétrica
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco imediato em acidentes com eletricidade
A lesão elétrica é uma condição potencialmente grave que envolve passagem de corrente elétrica através do corpo humano, podendo causar danos locais e sistêmicos, muitas vezes não visíveis à inspeção inicial.
Segundo o Protocolo de Manchester, toda vítima de choque elétrico deve ser classificada com atenção especial, mesmo que não apresente sinais externos importantes, pois podem ocorrer arritmias cardíacas, queimaduras internas, falência renal aguda, parada cardiorrespiratória ou distúrbios neurológicos.
⚠️ A gravidade da lesão elétrica não depende apenas da voltagem. Mesmo baixas tensões domésticas podem causar morte súbita, principalmente se houver passagem da corrente pelo tórax.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
Lesão Elétrica:
Qualquer lesão causada, ou potencialmente causada, por corrente elétrica, incluindo:
Corrente alternada (AC) — típica de instalações domésticas e industriais;
Corrente contínua (DC) — como em baterias e veículos elétricos;
Fontes naturais — como raios (descargas atmosféricas);
Fontes artificiais — equipamentos, fios desencapados, tomadas, painéis elétricos.
🧠 Efeitos clínicos potenciais da lesão elétrica
🟠 Sistêmicos (mesmo sem queimadura visível):
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Arritmias cardíacas (fibrilação ventricular, assistolia, taquicardias);
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Parada cardíaca imediata;
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Lesão muscular extensa → rabdomiólise → insuficiência renal aguda;
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Alterações neurológicas (convulsão, perda de consciência, tetania);
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Trauma associado (queda, fratura, TCE).
🔴 Locais:
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Queimaduras de entrada e saída;
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Necrose de tecidos profundos (músculos, tendões);
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Lesões em cavidade oral (crianças com cabos elétricos na boca);
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Lesões oftálmicas (catarata por choque elétrico ocular).
⚠️ A ausência de marcas externas não exclui lesões internas graves.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o enfermeiro deve:
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Confirmar o mecanismo:
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“Foi um choque elétrico?”
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“Teve contato com fio, tomada, equipamento ou raio?”
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“Houve queda após o choque?”
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Verificar sinais imediatos:
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Confusão, dor muscular, sensação de queimação, dormência;
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Queimaduras, perda de consciência, amnésia pós-evento, palidez, fraqueza.
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Avaliar risco de lesão interna:
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Região de entrada/saída da corrente (mão para pé, mão para mão, tórax etc.);
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Presença de dor torácica, palpitações, convulsão ou urina escura (rabdomiólise).
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🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
Este discriminador pode ser utilizado nos fluxogramas:
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Queimaduras / choque elétrico
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Perda de consciência / síncope súbita
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Dor torácica após choque elétrico
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Trauma associado (queda, fratura, TCE)
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Distúrbios do ritmo cardíaco após exposição elétrica
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
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Lesão elétrica +:
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Perda de consciência, parada cardiorrespiratória ou reanimação prévia;
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Queimadura extensa ou profunda com áreas negras;
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Arritmias, dor torácica, dispneia, rebaixamento do nível de consciência;
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Trauma associado grave (queda de altura, TCE, fratura exposta).
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🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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Lesão elétrica +:
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Queimadura de entrada/saída evidente, com dor intensa;
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Contato com alta tensão (> 1000 V), mesmo sem sintomas;
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Confusão, amnésia, parestesia, palpitações, urina escura.
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🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
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Lesão elétrica leve:
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Contato breve com fonte doméstica (< 220V), paciente orientado, sem dor ou alterações visíveis;
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Sem sinais neurológicos, sem trauma associado.
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Todo paciente com choque elétrico deve ser avaliado com eletrocardiograma (ECG) na triagem ou logo após.
📋 Exemplos clínicos aplicados
✅ Situação 1 – Classificação Vermelha
Homem de 45 anos, sofreu descarga elétrica em poste de alta tensão. Encontrado inconsciente, com queimaduras profundas no ombro e pé, PA 80/50 mmHg.
➡️ Fluxograma: “Lesão elétrica com instabilidade”
➡️ Discriminador: “Lesão Elétrica”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato e monitorização intensiva
✅ Situação 2 – Classificação Laranja
Mulher de 30 anos, choque elétrico ao tocar um fio desencapado no chuveiro. Apresenta queimação na mão direita, tontura e dor no peito. ECG inicial com extrassístoles.
➡️ Fluxograma: “Queimadura leve + sintomas sistêmicos”
➡️ Discriminador: “Lesão Elétrica”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos
✅ Situação 3 – Classificação Amarela
Criança de 8 anos, colocou dedo em tomada, sentiu choque rápido. Sem queimadura, sem dor ou queixa após o susto. ECG normal.
➡️ Fluxograma: “Contato com baixa voltagem sem sintomas”
➡️ Discriminador: “Lesão Elétrica”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
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Avaliar:
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Sinais de queimadura, dor, alterações de consciência, queixas cardíacas ou neurológicas;
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Sinais vitais, saturação, nível de consciência, frequência cardíaca;
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Investigar:
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Voltagem presumida, duração do contato, tipo de fonte (doméstica, industrial, atmosférica);
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Presença de trauma secundário (quedas, pancadas, fraturas);
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Providenciar:
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ECG imediato, acesso venoso, oxigenoterapia se indicada, analgesia conforme prescrição;
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Encaminhamento urgente conforme a gravidade clínica;
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Registrar:
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Horário do acidente, descrição da fonte elétrica, local de entrada e saída da corrente, achados físicos, classificação e conduta.
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✅ O que aprendemos
O discriminador “Lesão Elétrica” é extremamente sensível a situações de alto risco, mesmo quando os sinais físicos são discretos. O Protocolo de Manchester orienta que todo choque elétrico deve ser valorizado, devido ao risco de complicações cardíacas, neurológicas e musculares graves.
A aplicação correta desse discriminador permite ao profissional de triagem salvar vidas mesmo em casos que, aparentemente, parecem simples, promovendo avaliação completa e precoce.