Lesão por Inalação

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e risco respiratório oculto por gases tóxicos ou fumaça

A lesão por inalação ocorre quando a pessoa respira gases tóxicos, fumaça ou vapores químicos nocivos, geralmente em ambientes fechados durante incêndios, explosões ou acidentes com substâncias voláteis.

Segundo o Protocolo de Manchester, a presença ou não de sinais visíveis não exclui a gravidade da exposição. A história de exposição em local fechado com fumaça é o indicador mais confiável, mesmo na ausência de marcas físicas externas.

⚠️ A lesão por inalação pode levar à obstrução aguda de vias aéreas, queimaduras internas, edema de laringe, intoxicação por monóxido de carbono e insuficiência respiratória — com início imediato ou retardado.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Lesão por Inalação:
Situação em que a pessoa esteve exposta à inalação de fumaça, vapor tóxico ou gás, geralmente em ambiente confinado, com ou sem sinais visíveis.

A triagem deve considerar como critério diagnóstico primário:

  • Histórico confiável de confinamento em ambiente com fumaça ou gás;

  • Sinais sugestivos como rouquidão, tosse seca, dispneia, estridor;

  • Presença de fuligem ou carbono em boca e narinas.


🧠 Principais causas clínicas de lesão por inalação

🔴 Incêndios e explosões:

  • Respiração de fumaça densa e quente em ambientes fechados (casas, ônibus, fábricas);

  • Queimaduras térmicas associadas à inalação de gases quentes.

🔴 Exposição a substâncias químicas:

  • Gases industriais (cloro, amônia, cianeto, dióxido de enxofre);

  • Substâncias de limpeza em ambientes fechados;

  • Gases tóxicos domésticos (fogão com vazamento, aquecedores a gás mal regulados).

🔴 Inalação de monóxido de carbono (CO):

  • Causa comum e silenciosa de intoxicação;

  • Não tem cheiro, cor ou irritação;

  • Leva à hipóxia tecidual com risco de morte.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Investigar o histórico com perguntas diretas:

    • “Você estava em um local com fumaça ou gás?”

    • “O ambiente estava fechado?”

    • “Você teve dificuldade de sair do local?”

    • “Havia cheiro forte, fumaça densa ou vapores?”

  2. Observar sinais clínicos sugestivos:

    • Rouquidão, tosse seca, respiração ruidosa (estridor), confusão;

    • Fuligem em boca e nariz, odor de fumaça na pele ou roupas;

    • Náuseas, tontura, dor de cabeça (sugestivos de intoxicação por CO);

    • Queimaduras na face ou vibrissas nasais chamuscadas.

  3. Avaliar sinais vitais e oximetria:

    • Taquipneia, saturação < 94%, FC elevada, confusão mental.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

Este discriminador pode ser utilizado nos fluxogramas:

  • Queimadura com suspeita de inalação

  • Dispneia ou estridor pós-exposição a fumaça/gás

  • Alteração do nível de consciência por exposição ambiental

  • Acidente com produto químico inalado

  • Exposição ao monóxido de carbono (casa com lareira, fogão, gerador)


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • História de inalação +:

    • Confusão mental, rebaixamento do nível de consciência;

    • Rouquidão, estridor, uso de musculatura acessória, cianose;

    • SpO₂ < 90% ou sinais de intoxicação por CO (cefaléia intensa, náuseas, convulsão);

    • Queimaduras faciais com fuligem em cavidade oral ou nasal.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • História de inalação +:

    • Tosse persistente, rouquidão, desconforto respiratório leve a moderado;

    • SpO₂ borderline (91–94%);

    • Ausência de sinais de comprometimento de via aérea, mas exposição significativa confirmada.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Exposição a fumaça ou vapor irritante com sintomas leves (ex: ardência ocular, leve irritação de garganta), em ambiente ventilado e com estado geral preservado.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Homem de 60 anos, retirado inconsciente de incêndio em garagem. Apresenta fuligem na boca e nariz, SpO₂ 86%, FC 122 bpm, PA 90/60 mmHg.

➡️ Fluxograma: “Inalação de fumaça com comprometimento respiratório”
➡️ Discriminador: “Lesão por Inalação”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato


Situação 2 – Classificação Laranja

Mulher de 35 anos, exposta à fumaça em incêndio de cozinha fechada. Está consciente, refere tosse e rouquidão. Sem fuligem visível. SpO₂ 93%.

➡️ Fluxograma: “Inalação com sintomas respiratórios leves”
➡️ Discriminador: “Lesão por Inalação”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Amarela

Jovem de 25 anos, entrou em depósito com cheiro de solvente forte. Relata leve ardência ocular e dor de cabeça. Sem tosse, respira normalmente.

➡️ Fluxograma: “Exposição leve a gás irritante”
➡️ Discriminador: “Lesão por Inalação”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar:

    • Sinais respiratórios (estridor, tosse, SpO₂, uso de musculatura acessória);

    • Presença de fuligem, queimaduras faciais, alteração de consciência;

  • Investigar:

    • Tempo de exposição, tipo de ambiente, substância inalada;

    • Se estava em espaço fechado ou ventilado;

  • Providenciar:

    • Oxigenoterapia de alto fluxo (com máscara não reinalante);

    • ECG, monitorização contínua e preparo para via aérea avançada, se necessário;

  • Registrar:

    • Relato do paciente, achados físicos, localização do incidente, sintomas associados, classificação e conduta adotada.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Lesão por Inalação” deve ser aplicado sempre que houver suspeita ou confirmação de exposição a fumaça ou gases tóxicos, independentemente da presença de sinais visíveis.

Sua correta aplicação no Protocolo de Manchester permite identificar e priorizar rapidamente pacientes com risco de insuficiência respiratória iminente, intoxicação grave e parada respiratória.


Última atualização: sexta-feira, 4 abr. 2025, 00:17