Lesão Neurológica Focal

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e risco neurológico agudo com comprometimento motor, sensorial ou visual

A lesão neurológica focal é caracterizada por perda de função motora, sensitiva ou sensorial em uma parte específica do corpo, como um membro, um lado do corpo, a fala, a visão ou a coordenação, geralmente causada por comprometimento agudo do sistema nervoso central ou periférico.

Segundo o Protocolo de Manchester, a presença de déficit neurológico focal é sempre considerada um sinal de alarme e deve ser avaliada com prioridade máxima, principalmente quando houver início súbito ou progressão ao longo de horas, pois pode indicar um Acidente Vascular Cerebral (AVC), AIT, tumor cerebral, crises epilépticas ou infecções do sistema nervoso.

⚠️ A gravidade pode não estar relacionada à intensidade dos sintomas, mas sim à localização da lesão neurológica e ao tempo de evolução até o atendimento.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Lesão Neurológica Focal:
Perda de função limitada a uma parte do corpo, como braço, perna, lado do corpo, um olho ou a fala, causada por disfunção neurológica localizada.

Pode ser de instalação:

  • Aguda: início repentino (ex: AVC);

  • Subaguda: com progressão ao longo de horas (ex: abscesso cerebral, esclerose múltipla, tumor).


🧠 Manifestações clínicas comuns

🔴 Motoras:

  • Hemiparesia (fraqueza em um lado do corpo);

  • Paralisia de membros ou face (queda da comissura labial, desvio de rima bucal);

  • Dificuldade de marcha, desequilíbrio.

🔴 Sensitivas e sensoriais:

  • Dormência ou formigamento em um lado do corpo ou membro;

  • Perda de visão unilateral ou visão dupla;

  • Perda de campo visual (hemianopsia);

  • Disartria (fala arrastada), afasia (dificuldade de compreender ou expressar palavras).

⚠️ Sinais associados importantes:

  • Cefaleia intensa associada a déficits;

  • Convulsões parciais ou generalizadas;

  • Confusão mental, desorientação ou rebaixamento de consciência.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Realizar perguntas direcionadas:

    • “Você está com dificuldade de mover algum lado do corpo?”

    • “Está sentindo formigamento, fraqueza ou dormência em algum membro?”

    • “Sua visão mudou repentinamente?”

    • “Sua fala está diferente?”

  2. Observar sinais objetivos:

    • Assimetria facial, fraqueza em braço/perna (teste do "braço estendido" por 10 segundos);

    • Alteração da fala, confusão ou desorientação;

    • Desequilíbrio ao andar, quedas recentes.

  3. Avaliar tempo de instalação e evolução:

    • Início súbito (em segundos ou minutos) ou agravamento nas últimas horas?

🧠 Utilize escalas rápidas como o FAST (Face, Arms, Speech, Time) ou Cincinnati Stroke Scale na triagem.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

Este discriminador é aplicável nos fluxogramas:

  • Déficit neurológico focal / suspeita de AVC ou AIT

  • Perda de força ou sensibilidade em um membro

  • Alteração visual ou da fala com instalação aguda

  • Cefaleia com sinais neurológicos associados

  • Queda com fraqueza súbita de membro

  • Paciente com histórico de tumor cerebral ou epilepsia


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Início súbito de déficit neurológico com:

    • Hemiparesia, afasia, confusão, rebaixamento do nível de consciência;

    • Desvio de olhar, paralisia facial, diplopia com desequilíbrio;

    • Suspeita de AVC em janela terapêutica (< 4h30 do início dos sintomas).

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Déficit neurológico focal em evolução nas últimas horas:

    • Fraqueza progressiva, alterações visuais monoculares, paralisia facial isolada sem rebaixamento;

    • Quadro estável, mas com alto risco de deterioração.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Alterações discretas, sintomas sensoriais subjetivos (formigamento leve, tontura) com sinais vitais normais e sem progressão.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Homem de 66 anos, início súbito de fraqueza no lado esquerdo e fala enrolada há 45 minutos. Glasgow 15, PA 160/95 mmHg, glicemia 108 mg/dL.

➡️ Fluxograma: “AVC isquêmico – dentro da janela terapêutica”
➡️ Discriminador: “Lesão Neurológica Focal”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato com protocolo de trombólise


Situação 2 – Classificação Laranja

Mulher de 50 anos, com formigamento crescente na mão direita e fraqueza leve iniciada há 4 horas. Fala normal, consciente, sinais vitais normais.

➡️ Fluxograma: “Déficit neurológico em evolução”
➡️ Discriminador: “Lesão Neurológica Focal”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Amarela

Paciente de 28 anos, relata sensação de “dormência” na perna direita há 6 horas, sem perda de força ou desequilíbrio. Andando normalmente. Exame neurológico inicial normal.

➡️ Fluxograma: “Parestesia leve sem sinais associados”
➡️ Discriminador: “Lesão Neurológica Focal”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar:

    • Déficits motores, sensoriais e de fala com foco em lateralidade (um lado do corpo);

    • Sinais vitais, nível de consciência, glicemia capilar, escala de AVC;

  • Investigar:

    • Tempo de início dos sintomas, doenças neurológicas prévias, uso de anticoagulantes, história de trauma ou convulsão;

  • Providenciar:

    • ECG, oxigenoterapia se indicada, glicemia capilar, encaminhamento para protocolo de AVC se aplicável;

  • Registrar:

    • Lateralidade dos sintomas, tempo de início, sintomas associados, escala de triagem, conduta e encaminhamento.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Lesão Neurológica Focal” é um dos mais sensíveis na triagem neurológica e deve ser sempre tratado como situação de alto risco potencial, principalmente se os sintomas forem de início súbito ou em progressão.

Sua correta aplicação no Protocolo de Manchester possibilita um fluxo rápido para avaliação neurológica, neuroimagem e terapias como trombólise, impactando diretamente no prognóstico funcional e na sobrevivência do paciente.


Última atualização: sexta-feira, 4 abr. 2025, 00:23