Lesão Ocular

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e avaliação de urgência em traumatismos oculares

A lesão ocular refere-se a qualquer traumatismo recente que afeta um ou ambos os olhos, seja por impacto direto, corpo estranho, substância química, queimadura, corte ou perfuração.

Segundo o Protocolo de Manchester, toda lesão ocular deve ser considerada com atenção especial, pois pequenos traumas podem evoluir rapidamente para perda visual irreversível se não forem tratados com rapidez e precisão.

⚠️ A triagem correta de lesões oculares é essencial para evitar complicações graves como perfuração do globo ocular, descolamento de retina, infecção intraocular, queimaduras químicas e cegueira.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Lesão Ocular:
Qualquer evento traumático recente que afete diretamente o olho ou estruturas perioculares (córnea, conjuntiva, esclera, pálpebras, canal lacrimal ou fundo de olho), podendo envolver:

  • Trauma contuso (pancada, queda, soco);

  • Trauma perfurante (objeto pontiagudo, estilhaços);

  • Corpo estranho (partículas metálicas, areia, pó);

  • Queimaduras térmicas ou químicas;

  • Lesões secundárias a agressões, acidentes ou esportes.


🧠 Tipos comuns de lesões oculares e suas causas

🔴 Traumas contusos:

  • Pancada com bola, soco, acidente de carro, queda;

  • Pode causar hifema (sangue na câmara anterior), descolamento de retina, edema macular, fratura de órbita.

🔴 Perfurações e cortes:

  • Objetos pontiagudos (tesoura, lápis, galho de árvore);

  • Perfuração de globo ocular, com perda da integridade estrutural.

🔴 Corpos estranhos:

  • Metal, areia, cisco, vidro, pó de cimento;

  • Risco de abrasão de córnea e infecção.

🔴 Lesões químicas:

  • Produtos de limpeza, cal, ácidos, cola instantânea;

  • Risco elevado de necrose da córnea e cegueira se não lavadas imediatamente.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Investigar o tipo de trauma ocular:

    • “O que atingiu o seu olho?”

    • “Foi batida, objeto perfurante, produto químico ou algo entrou no olho?”

    • “Houve perda visual, dor, vermelhidão ou lacrimejamento após o trauma?”

  2. Observar sinais clínicos objetivos:

    • Edema de pálpebra, sangramento, laceração;

    • Hifema (sangue visível na parte anterior do olho);

    • Pupilas assimétricas, perda de acuidade visual, fotofobia.

  3. Avaliar fatores de risco e evolução:

    • Tempo desde o trauma, intensidade da dor, piora progressiva dos sintomas;

    • Histórico de cirurgia ocular, uso de lente de contato, risco ocupacional.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

Este discriminador pode ser aplicado nos seguintes fluxogramas:

  • Trauma ocular com dor e perda visual

  • Exposição ocular a produto químico

  • Corpo estranho ocular com sensação de areia

  • Sangramento ocular ou laceração palpebral

  • Edema, hematoma ou deformidade após impacto


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Trauma ocular +:

    • Perfuração evidente, proptose ocular, extravasamento de humor vítreo;

    • Dor intensa com perda súbita de visão;

    • Exposição a produto químico corrosivo sem irrigação imediata;

    • Hifema extenso ou deformidade da pupila.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Lesão ocular +:

    • Dor intensa, corpo estranho profundo, sangramento discreto na câmara anterior;

    • Lacerações palpebrais extensas;

    • Redução de acuidade visual parcial ou edema progressivo.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Lesão ocular leve:

    • Corpo estranho superficial, ardência, lacrimejamento, leve vermelhidão, sem perda visual.

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

  • Trauma leve já resolvido:

    • Queixa ocular leve sem dor significativa, corpo estranho removido no local, sem alterações visuais.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Homem de 34 anos, perfuração ocular por vergalhão em obra. Globo ocular deformado, pupila irregular, perda total da visão direita.

➡️ Fluxograma: “Trauma ocular perfurante”
➡️ Discriminador: “Lesão Ocular”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato e oftalmologia de emergência


Situação 2 – Classificação Laranja

Adolescente de 15 anos, pancada com bola no olho esquerdo, apresenta dor intensa, vermelhidão e visão embaçada.

➡️ Fluxograma: “Trauma contuso com suspeita de hifema”
➡️ Discriminador: “Lesão Ocular”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Amarela

Mulher de 40 anos, corpo estranho ocular (pó de cimento), lavou com água, dor leve e ardência persistente.

➡️ Fluxograma: “Corpo estranho ocular”
➡️ Discriminador: “Lesão Ocular”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar:

    • Integridade do globo ocular, dor, presença de secreção, visão alterada, reatividade pupilar;

    • Sinais vitais, Glasgow (se houver trauma associado);

  • Investigar:

    • Tipo e mecanismo do trauma, substância envolvida (se química), tempo de exposição;

  • Providenciar:

    • Irrigação com SF 0,9% imediata em casos químicos;

    • Compressa estéril, proteção do olho lesado (sem compressão), analgesia conforme prescrição;

  • Registrar:

    • Lado afetado, sintomas visuais, achados oculares, histórico de uso de lentes de contato ou cirurgias, classificação e conduta.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Lesão Ocular” exige avaliação rápida e precisa, pois até mesmo traumas aparentemente simples podem gerar complicações sérias, como infecção, perfuração e perda visual permanente.

Sua correta aplicação no Protocolo de Manchester permite priorizar o atendimento conforme o tipo de lesão, protegendo a integridade ocular do paciente e garantindo encaminhamento oportuno para oftalmologia ou cirurgia emergencial.


Última atualização: sexta-feira, 4 abr. 2025, 00:24